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ANTOLOGIA POÉTICA

Fernando Pessoa
Seleção e organização de Jane Tutikian

Coleção L&PM Pocket
Ref. 1013
64 páginas
ISBN 978-85-254-2593-5
Também em e-book

R$ 5,00



CAIXA ESPECIAL FERNANDO PESSOA – 5 VOL.

Fernando Pessoa

Coleção L&PM Pocket
912 páginas
ISBN 978.85.254.1690-2

R$ 81,50



CANCIONEIRO

Fernando Pessoa
Organização, introdução e notas de Jane Tutikian

Coleção L&PM Pocket
Ref. 654
184 páginas
ISBN 978.85.254.1701-5

R$ 15,90



MENSAGEM

Fernando Pessoa
Organização, introdução e notas de Jane Tutikian

Coleção L&PM Pocket
Ref. 487
112 páginas
ISBN 85.254.1515-4
ISBN-13 978.85.254.1515-8
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ODES DE RICARDO REIS

Fernando Pessoa
Organização, introdução e notas de Jane Tutikian

Coleção L&PM Pocket
Ref. 516
192 páginas
ISBN 85.254.1542-1
ISBN-13 978.85.254.1542-4
Também em e-book

R$ 15,90

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Fernando Pessoa

Falar de Fernando Pessoa não é apenas falar do maior poeta de língua portuguesa do século XX, mas é, também, falar de uma personalidade extrema­­mente controvertida (como a de todo o gênio) e de uma obra vasta, afinal, Pessoa é vários poetas num só.

Filho de Joaquim de Seabra Pessoa, funcionário pú­blico e crítico musical, e de Maria Madalena Pinheiro Nogueira, Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasce em 13 de junho de 1888 na cidade de Lisboa, e sua primeira infância é marcada por acontecimentos que deixam cicatrizes para toda a vida. Com apenas cinco anos de idade, em 1893, Pessoa perde o pai, que morre de tuberculose, e ganha um irmão, Jorge. A morte de Joaquim traz tantas dificuldades financeiras à família que Madalena e seus filhos são obrigados a baixar o nível de vida, passando a viver na casa de Dionísia, a avó louca do poeta.

São as duas primeiras perdas do menino: o pai, a quem era muito apegado, e a casa. No ano seguinte, 1894, morre também Jorge. E, como para que compensar tudo isso, é nesse ano que Fernando Pessoa “encontra” um amigo invisível: o Chevalier de Pas, ou o Cavaleiro do Nada, “por quem escrevia cartas dele a mim mesmo”, diz o poeta, na carta de 1935 ao crítico Casais Monteiro.

Em 1895, dois anos após a morte de Joaquim, Madalena se casa com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal na cidade de Durban, uma co­lônia inglesa na África do Sul, e é para lá que a fa­mília se muda no ano seguinte.

Pouco se sabe a respeito da família nesse pe­ríodo africano, a não ser o nascimento dos irmãos Henri­queta Madalena, Madalena (que morre aos três anos) e João, e algumas notícias sobre a escolaridade de Fernando. Em 1896, ele inicia o curso primário na escola de freiras irlandesas da West Street. Três anos depois, ingressa na Durban High School.Consi­de­rado um aluno excepcional, em 1900 é admitido no terceiro ano do liceu e, antes final do ano letivo, é promovido ao quarto ano. Faz em três o que deveria fazer em cinco anos.

O ano seguinte é um ano de alegria, surpresa e descoberta para o adolescente Pessoa: as férias são em Portugal, e só em setembro de 1902 ele regressa a Durban. Foi nessa época, aos 14 anos, que escreveu seu primeiro poema em português que chegou até nós:

(...)

Quando eu me sento à janela,
P’los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa... não passa...

Em 1903, o jovem Fernando Pessoa é admitido na Universidade do Cabo, e cursa apenas um ano; alguma coisa no poeta fala mais forte, e, nesse período, ele cria várias “personalidades literárias”, ou seja, vários poetas fictícios que vão assinar as poesias que “eles próprios” escrevem. Entre os poetas saídos da imaginação de Pessoa nessa época, destacam-se dois: Alexander Search, um adolescente, como o seu criador, que, inclusive, nasceu no dia do seu aniversário, e Charles Robert Anon, também adolescente, mas totalmente oposto ao temperamento de Fernando. De alguma maneira, começava a se delinear aquilo que faria de Fernando Pessoa um poeta como nenhum outro no mundo: um poeta que, sendo um, era muitos poetas.

Em 1904, a família aumenta; é a vez do nascimento da irmã Maria Clara. Um ano depois, há uma virada na vida do poeta: ele retorna a Portugal, onde passa a viver com a tia-avó Maria e inscreve-se na Faculdade de Letras, mas, com a criação poética pulsando em toda a sua intensidade, quase não freqüenta o curso. No ano seguinte, Pessoa mora com a mãe e o padrasto, que estão em férias em Lisboa; mas morre a irmã Maria Clara, a família volta para Durban, e ele vai morar com a avó e com as tias. É então que de­siste, definitivamente, do curso de Letras.

Com a morte da avó, em 1906, Fernando Pes­soa recebe uma pequena herança e aplica-a in­tegral­mente numa tipografia. Falta-lhe, entretanto, experiência, e o em­­preendimento logo fracassa. Isso faz com que, em 1908, comece a trabalhar como “correspondente de línguas estrangeiras”, ou seja, encarrega-se da correspondência comercial em inglês e francês em escritórios de importações e exportações, profissão que, junto com a de tradutor, desempenhará até o fim da vida.

É em 1912 que Fernando Pessoa conhece outro jovem poeta, de quem se torna grande amigo e parceiro na aventura literária: Mário de Sá-Carneiro. É um momento interessante na vida de Pessoa, e, ao contrário do que se pensa, ele não estréia na li­tera­tura com poesias, mas publicando artigos na revista A Águia, cujo editor e organizador é o também poeta Teixeira de Pascoais. Seus artigos provocam polêmica junto à intelectualidade portuguesa, até porque ele mexe com o grande ícone da nação: Pessoa anuncia a chegada, para Portugal, de um poeta maior do que Luís de Camões; um supra-Camões, o que faz com que seja imediatamente criticado. Essa é também a época em que ele passa a viver com a tia pre­ferida, Anica.

O ano seguinte é de muita produção. Ligado às ciências ocultas, escreve os primeiros poemas eso­té­ricos; “Epithalamium”, um poema erótico em inglês; “Gládio”, que depois usará na Mensagem, o poema que conta a história de Portugal; e uma peça de teatro de um único ato chamada “O Marinheiro” – diz-se, inclusive, que escreveu a peça em apenas 48 horas. É também nesse ano que publica na revista A Águia um texto chamado “Floresta do Alheamento”, que mais tarde fará parte do Livro do desassossego, uma obra escrita durante toda a sua vida de criador.

Mas nenhum dia foi igual àquele 8 de março de 1914: o “dia triunfal”. Deixemos que o poeta nos conte:

“...foi em 8 de março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa es­­péci­e de êxtase cuja natureza não conseguirei de­fini­­­r. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca po­derei ter outro assim. Abri com um título, O guar­dador de rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro pa­pel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e to­talmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro. Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscien­temente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode triunfal de Álvaro de Campos – a ode com esse nome e o homem com o nome que tem. Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. [...] Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construí-lhes as idades e as vidas.” (Carta a Casais Monteiro, janeiro de 1935.)

Ou seja, em 8 de março de 1914 nascem os hete­rô­ni­mos Alberto Caeiro – que ele logo toma por seu mestre –, Ricardo Reis e Álvaro de Campos; nascem dele, com suas respectivas obras.

Por que heterônimos, e não pseudônimos? Porque, quando usa um pseudônimo, um poeta se esconde atrás de um nome falso. É para esconder o nome verdadeiro que o pseudônimo existe. O heterônimo, ao c­ontrário, não esconde ninguém, é um personagem, criado pelo poeta, que escreve a sua própria obra. Tem nome próprio, obra própria, biografia própria e, sobretudo, um estilo próprio. Esse nome, essa obra, essa biografia e esse estilo são diferentes do nome, da obra, da biografia e do esti­lo do poeta criador do personagem. Ao criador do heterônimo se dá o nome de ortônimo; foi Fernando Pessoa quem criou essa designação e é o único caso de heteronímia na literatura universal.

E quem são esses heterônimos, esses personagens criados por Pessoa? Deixemos que o poeta mesmo os apresente como os “vê”, tal como o fez na carta a Casais Monteiro, em 1935:

Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. [...] Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. [...] Cara rapada todos – o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; [...] Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó.[...] Como es­crevo em nome desses três?... Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer cal­cular o que iria escrever [...] Caeiro escrevia mal o português [...]

Quanto a Ricardo Reis:

Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures) no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. [...] Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. (Do que Caeiro, que era de estatura média) [...]

Cara rapada todos – [...] Reis de um vago moreno mate; [...] Ricardo Reis, educado num colégio de jesuí­tas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educa­­ção alheia, e um semi-helenista por educação pró­pria. [...] Como escrevo em nome desses três? [...] Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstrata, que subitamente se caracteriza numa ode. [...] Reis escreve melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. [...]

Quanto a Álvaro de Campos:

[...] Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) [...] Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 (às 1h30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glas­gow), mas agora está aqui em Lisboa em inati­vidade. [...] Álvaro de Campos é alto (1,75m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos – [...] Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. [...] Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre. Como escrevo em nome desses três? [...] Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. [...] Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapso­s como dizer “eu próprio” em vez de “eu mesmo”, etc. [...] O difícil para mim é escrever a prosa de Reis – ainda inédita – ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso.

E, embora criações suas, são, de fato, poetas diferentes de Fernando Pessoa, na medida em que cada um deles possui uma forma diferente de estar no mundo e transforma esse estar em verso. E, mais ainda, é interes­sante observar a coerência existente entre a biografia deles e sua obra. Caeiro é o homem ligado à natureza, ele só acredita mesmo no que ouve e no que vê. Para ele, não existe mistério:

O que nós vemos das coisas são as coisas.
Por que veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa. [...]

Ricardo Reis faz uma poesia clássica, pagã, preo­cupada com a passagem tão rápida do tem­po, que tudo aniquila, no melhor estilo do poeta da Antigüidade, Horácio:

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Álvaro de Campos, ao contrário de Reis, é o poe­ta da modernidade, da euforia e do desencanto da modernidade; é o poeta da irreverência total a tudo e a todos:

Lisbon Revisited

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me
                                            [enfileirem conquistas]
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na (...)

E há ainda um semi-heterônimo, Bernardo Soa­res, o ajudante de guarda-livros de um escritório de Lisboa. Por que semi-heterônimo? Pessoa explica:

É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual...

O ano de 1915 foi outro ano importante na vida deste poeta múltiplo e genial e na Literatura Portuguesa do século XX: o ano da criação da Revista Orpheu, que revoluciona a criação literária por­tu­gue­sa, dando início ao Modernismo naquele país. A revista tem apenas dois números publicados (o tercei­ro viria a público somente na década de 80). Isso, entretanto, não desanima Pessoa; o que o deixa ver­da­deiramente deprimido é o suicídio do amigo Mário, no ano seguinte, em Paris. Então, além da sua própria produção, publicada sobretudo em revistas como Portugal Futurista, Fernando Pessoa toma para si o encargo de organizar a obra de Sá-Carneiro.

O poeta conhece, em 1920, a secretária Ophélia Queiroz, a quem passa a namorar. Nesse mesmo ano, em outubro, atravessa uma depressão tão profunda que chega a pensar em internar-se numa casa de saúde. Rompe com Ophélia. Sua mãe, Madalena, morre em 17 de março de 1925. Seu próprio estado psicológico in­quieta o poeta e ele escreve a um amigo ma­nifestando o desejo de ser hospitalizado. É interessante observar que Pessoa era perseguido por uma espécie de consciên­cia de seu estado psíquico, tanto que, quando, pouco antes de morrer, ele escreve a carta ao crítico Adolfo Casais Monteiro explicando como nasceram os he­te­rôni­mos, ele diz, ainda que ironizando, que é um histeroneurastênico:

Há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos – felizmente para mim e para os outros – mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com ou­tros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher – na mulher os fe­nómenos histéricos rompem em ataques e cou­­sas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem – e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...

Nesse momento, está nascendo em Portugal uma outra geração literária. Em 1927, é publicada a Revista Presença, e com elatem início o Presencismo, ou o segundo Modernismo português. Um dos grandes feitos dessa nova geração de poetas é o reconhecimento de Fer­nando Pessoa como seu mestre, fazendo com que Portugal comece a olhar com outros olhos para o seu maior poeta do século. É um momento importante para Fernando Pessoa que, em 1929, volta a se relacio­nar com Ophélia. Nesse mesmo ano, publica fragmentos do Livro do desassossego, creditando-os a Bernardo Soares. O namoro com Ophélia, porém, não prospera e, no ano seguinte, há o rompimento definitivo. Curiosamente, tudo indica que o proble­ma foi o ciúme levantado por Álvaro de Cam­pos, o heterônimo.

O ano de 1931 traz consigo o poema “Auto­psi­co­­grafia”, talvez o poema mais conhecido do autor:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Aí, o poeta explica o que para ele é a criação de um poema, sugerindo que existem duas dores, a que o poeta sente e a que ele cria na poesia, e é a segunda que o torna um fingidor. E foi o que Fernando Pessoa fez: fingiu tão completamente ser outros que não conseguiu encontrar a si mesmo. Mas isso se justifica: para o poeta, o fingimento é a forma de chegar à verdade essencial, e só se pode chegar à verdade essencial através do poema.

O ano anterior ao da sua morte é um ano pro­fícuo. Há como que uma espécie de retorno à simplicidade das coisas, e o poeta escreve mais de trezentas quadras populares.

É também nesse ano que Pessoa finaliza Por­tugal, o poema épico português do século XX que depois será chamado de Mensagem, e o inscreve no Prêmio Antero de Quental, concurso literário instituído pelo Secretariado Nacional de Propaganda. Fernando Pessoa fica apenas em segundo lugar: seu livro tinha um número muito reduzido de páginas e não atendia à orien­tação do Estado Novo, a ditadura de Salazar. A obra vencedora foi Romaria, uma seleção de poemas do Padre Vasco Reis, hoje totalmente desconhecido.

Em 1935, Fernando Pessoa escreve a famosa carta ao crítico Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de ja­­neiro, em que explica como nasceram os heterônimos e na qual se revela um ocultista, um místico. É uma espécie de revelação final, apoteótica. Em 29 de no­vembro, é internado no hospital com o diagnóstico de cólica hepática. A sua última frase, escrita em inglês, é: “I know not what tomorrow will bring”(Eu não sei o que o amanhã trará). Seu último pedido, em português, foi para que lhe alcançassem os óculos. Morre no dia 30 de novembro de 1935, às 20h30, aos 47 anos, de cirrose hepática.

Deixou toda sua obra – mais de 27 mil papéis – dentro de uma grande arca, comprada pelo Estado português em 1979 e depositada na Biblioteca Nacional e reprivatizada há cerca de nove anos. Esses documentos vêm sendo estudados e divulgados por uma equipe coordenada por Teresa Rita Lopes, sob a chancela da editora Assírio & Alvim. São ensaios, mais de mil poemas, três heterônimos, um semi-heterônimo desdobrado em dois (Vicente Guedes e Bernardo Soares), mais de setenta pequenos heterônimos (sem obra consistente), cartas, contos, teatro, textos políticos, notas etc. É a obra do fingidor, do polêmico, do cria­dor de vanguardas, do ocultista, do poeta dra­mático, do poeta das quadras populares e do questio­nador em busca de ser, que foi tanto a sua criação que se perdeu de si mesmo:

Quem sou, que assim me caminhei sem eu
Quem são, que assim me deram aos bocados
À reunião em que acordo e não sou meu?”

Logo após a morte do poeta, o irmão João Nogueira faz uma conferência e afirma que ninguém na família adivinhava que Fernando Pessoa, “uma pessoa muito inteligente e muito divertida”, “resultaria em génio...”. A verdade é que o mundo também levou muito tempo para descobrir.

Cronologia biobliográfica:

1888 – Filho de Joaquim de Seabra Pessoa, funcionário e crítico musical, e de Maria Madalena Pinheiro Nogueira, nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa em 13 de junho, no Largo de São Carlos, em Lisboa.
1893 – Nasce o irmão Jorge. O pai, Joaquim Pessoa, morre de tuberculose. A família se instala na casa de Dionísia, avó paterna, louca.
1894 – Morre Jorge. Fernando Pessoa cria seu primeiro “heterônimo”, “Chevalier de Pas”. 1895 – Escreve o seu primeiro poema, infantil, in­titulado “À Minha Querida Mamã”. A mãe, Ma­dalena Nogueira, casa por procuração com o coman­dante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, África do Sul.
1896 – Parte com a mãe e um tio-avô, Cunha, para Durban. Nasce a irmã Henriqueta Madalena. Inicia o curso primário na escola de freiras irlandesas da West Street.
1897 – Faz a primeira comunhão.
1898 – Nasce a outra irmã: Madalena.
1899 – Ingressa na Durban High School e, com louvor, passa, na metade do ano, para o ciclo superior.
1900 – Nasce o irmão Luís Miguel. Admitido no terceiro ano do liceu, obtém o prêmio de Francês e, no final do ano, em dezembro, é admitido no quarto ano.
1901 –Escreve o primeiro poema em inglês: “Separate from thee”. Morre a irmã Madalena. Parte com a família para um ano de férias em Portugal.
1902 –Nasce o irmão João. Escreve o primeiro poema conhecido em português: “Quando ela passa...”. Como a família regressara antes dele, em setembro, Pessoa volta sozinho para a África do Sul.
1903 – Submete-se ao exame de admissão à Uni­ver­sidade do Cabo. Obtém a melhor nota entre os 899 candidatos no ensaio de estilo inglês, o que lhe vale o Prêmio Rainha Vitória. Cria o “heterônimo” Alexander Search.
1904 –Primeiro texto impresso: ensaio sobre Ma­caulay, na revista do liceu. Termina seus estudos na África do Sul. Nascimento da irmã Maria Clara. Criação do “heterônimo” Charles Robert Anon.
1905 – Retorna a Lisboa, onde passa a viver com uma tia-avó, Maria. Continua a escrever poemas em inglês. Inscreve-se na Faculdade de Letras, mas quase não freqüenta.
1906 – A mãe e o padrasto retornam a Lisboa para férias de seis meses, e Pessoa volta a morar com eles. Morre Maria Clara.
1907 – A família retorna mais uma vez a Durban. Pes­soa passa a morar com a avó e as tias. Desiste do curso de Letras. Em agosto, a avó morre e lhe deixa uma pe­quena herança. Com o dinheiro, inaugura a tipo­gra­fia Íbis.
1908 – Começa a trabalhar como correspondente estrangeiro em escritórios comerciais. Começa a escrever cenas do “Fausto”, obra que nunca terminará.
1910 – Escreve poesia e prosa em português, inglês e francês.
1911 – Escreve “Análise”, iniciando o lirismo tipi­ca­mente pessoano.
1912 – Conhece Mário de Sá-Carneiro, de quem se tor­nará grande amigo. Pessoa estréia publicando arti­gos em A Águia, provocando polêmicas junto à intelectua­lidade portuguesa. Passa a viver com a tia Anica.
1913 – Escreve os primeiros poemas esotéricos; es­creve “Impressões do Crepúsculo” (poema paulista); “Epithalamium” (primeiro poema erótico, em in­glês); “Gládio” (que depois usará na Mensagem); “O Ma­rinheiro” (em 48 horas). Publica, em A Águia, “Floresta do Alheamento”, apresentado como fragmento do Livro do desassossego.
1914 – Primeiras publicações, como poeta, na Re­vista Renascença: “Impressões do crepúsculo” e “Ó si­no da minha aldeia”. Cria os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Escreve os poemas de O guardador de rebanhos, “Chuva oblíqua”, odes de Ricardo Reis e a “Ode Triunfal” de Campos.
1915 – Lança os doisprimeiros números de Orpheu, que provocam escândalo. Crise no grupo do Orpheu: Álvaro de Campos ataca Afonso Costa.
1916 – Pessoa fica deprimido com o suicídio de Mário de Sá-Carneiro. Publicação em revista da série de sonetos esotéricos Passos da Cruz.
1917 – Publicação do “Ultimatum”, de Campos, na Revista Portugal Futurista.
1918 – Pessoa publica dois livrinhos de poemas em inglês, resenhados com destaque na Times.
1919 – Morre o comandante Rosa.
1920 – Conhece Ophélia Queiroz, a quem passa a namorar. Sua mãe e seus irmãos voltam para Portugal. Em outubro, atravessa uma grande depressão, que o leva a pensar em internar-se numa casa de sáude. Rompe com Ophélia.
1921 – Funda a editora Olisipo, onde publica poemas em inglês.
1922 – Publica Mar português, com poemas que serão retomados na Mensagem.
1924 – Publica, na Revista Atena, vários poemas de Campos. 
1925 – Publica, na Atena, poemas de Alberto Caeiro. Decide parar a publicação da revista. Morre, em Lisboa, a mãe do poeta, em 17 de março. Seu estado psíquico o inquieta, escreve a um amigo, manifes­tando desejo de ser hospitalizado.
1926 – Cria, com o cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 – A Revista Presença reconhece Pessoa como mestre da nova geração de poetas. Publica, na revista, um poema seu, um do Álvaro de Campos e odes de Ricardo Reis.
1928 – Campos escreve “Tabacaria”. Pessoa escreve poemas que integrarão Mensagem.
1929 – Publica fragmentos do Livro do desassossego, creditando-os a Bernardo Soares. Volta a se relacionar com Ophélia.
1930 – Rompe com Ophélia. Encontra o “mago” Aleister Crowley.
1931 – Escreve “Autopsicografia”. Publica fragmen­tos do Livro do desassossego.
1932 – Continua publicando fragmentos do Livro do desassossego.
1933 – Publica “Tabacaria” e escreve o poema esotérico “Eros e Psique”.
1934 – Finaliza Portugal, que, depois será chamado de Mensagem. Candidata-se ao Prêmio Antero de Quen­tal. Escreve mais de trezentas quadras populares. Recebe o segundo lugar no concurso. Publica Mensagem.
1935 – Escreve a famosa carta a Adolfo Casais Mon­teiro, em que explica a gênese dos heterônimos. Redige sua nota biográfica, na qual se diz “conservador anti-reacionário”, “cristão gnóstico” e membro da Ordem dos Templários. Em 29 de novembro, é internado com o diagnóstico de cólica hepática. A sua última frase, escrita em inglês, diz: “I know not what tomorrow will bring’’. Morre no dia 30, às 20h30.

(Da introdução e cronologia de Jane Tutikian para a publicação da obra de Fernando Pessoa)

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Opinião do Leitor

"O Fernando Pessoa é a natureza da literatura.

TÊNUE
Cézar.

AS PALAVRAS SÃO SOLTAS
NAS VOZES ROUCAS
NOS LABIRINTOS DAS PRISÕES
RASGANDO O TECIDO TÊNUE
DAS VELAS DO CAIS.


AS PALAVRAS SÃO PRESAS
COMO OS BICHOS DA SÊDA
ASSIM, COMO O BLUES.
QUE ECOA NOS CRISTAIS
TOCADO INSISTENTEMENTE NOS FUNERAIS.


ETNIA E POESIA
POVO SEM FRONTEIRAS
E MUITA HIPOCRISIA
OS POETAS RASGAM AS VESTES
EM PROCISSÕES, MESMO SENDO ATEUS.


OS POETAS SACRIFICADOS
AO DEUS DA FOME
OS POETAS-MENDIGOS
VIVEM COMENDO, ORAÇÕES NOS LIXO-SÉ.
COM FOME:


PAGAM O DÌZIMO
NO FUNDO
NO FUNDO
SÃO HEREGES
SÃO POETAS.



"

Oldemilson Cézar
Salvador:Ba.

"FERNANDO PESSOA GRANDE GÊNERO DA POESIA BRASILEIRA SEUS POEMAS SÃO MUITOS RICOS E DE GRANDE FUNDAMENTO  MERECEM SER SEMPRE ESTUDADO EM SALA DE AULAS."

SARA LINS
JUAZEIRO-BA

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