Notícias


18/01/2022

Um retrospecto das adaptações literárias, por Luís Augusto Fischer

O objetivo geral de qualquer adaptação é oferecer a um leitor menos habilitado ou menos experiente (na língua escrita, na tradição literária ou em ambas) a oportunidade concreta de ler clássicos da literatura, de ter um primeiro e significativo contato com eles. Isso se faz há muito tempo. Podemos começar o raciocínio lembrando o caso absolutamente notório da adaptação dos vários livros que compõem a Bíblia (considerada neste raciocínio como texto literário, não como elemento de crença religiosa). No todo ou em partes, a Bíblia é traduzida e adaptada ao largo de todo o planeta já faz séculos, com vistas a fins religiosos, por certo, mas também por suas virtudes narrativas e poéticas.

 

Outro caso amplamente conhecido é o dos épicos de Homero. Como se sabe, tanto a Ilíada quanto a Odisseia se compõem de várias histórias que foram sendo concebidas e divulgadas por muitos poetas, por um longo tempo, sempre de maneira oral, recitada e cantada, até que, em certa altura, alguém as escreveu (não há certeza de que tenha de fato existido um sujeito chamado Homero, nem que ele, pessoalmente, tenha redigido as duas obras que são a ele atribuídas). E escreveu-as em versos, que eram a linguagem digna, naquele tempo, para aquelas narrativas heróicas de Ulisses, seus companheiros e seus inimigos, num mundo povoado de deuses impressionantes e tomado por guerras, perigos e maravilhas. Ao longo dos tempos, as histórias homéricas, no todo ou em parte, foram adaptadas de incontáveis maneiras: recontadas em prosa, publicadas segundo interesse em determinadas passagens (todo mundo conhece, por exemplo, o episódio do Cavalo de Troia, que faz parte da Ilíada mas foi publicado isoladamente), revisitadas pelo cinema, etc. Os clássicos de Homero tinham função pedagógica, e essa dimensão era a diretriz central dos trabalhos de adaptação.

 

Outro dos mais conhecidos casos de adaptação de clássicos é o de Charles Lamb, jornalista e escritor inglês que viveu entre 1775 e 1834 e que publicou em parceria com sua irmã Mary, no remoto ano de 1807, um livro chamado Contos de Shakespeare, destinado a crianças. Shakespeare (1564-1616), como se sabe, nunca escreveu contos, apenas dramas e poemas; Charles e Mary tomaram vinte de suas peças, concebidas para o palco, e as recontaram em prosa, com vocabulário e enredo simplificados, com vistas à leitura de leitores iniciantes. Pelo trabalho dos irmãos Lamb, que teve enorme sucesso e recebeu edições ilustradas (tendo sido traduzido mundo afora, no Brasil por ninguém menos que Mario Quintana), o grande Shakespeare passou a ser conhecido de outro público, o que terá contribuído para sua permanência e a divulgação de sua obra.

 

No Brasil, há um exemplo sensacional de adaptação, protagonizado por Monteiro Lobato (1882-1948). O genial criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo reescreveu para seu público tanto histórias passadas no Brasil, como As aventuras de Hans Staden, adaptação de um livro do século 16, como outras histórias europeias, a exemplo do caso de Dom Quixote, o imortal personagem de Miguel de Cervantes, além de uma série de histórias da antiguidade grega, como Os doze trabalhos de Hércules.

 

Tirando o caso de Lobato, a tradição geral das adaptações de clássicos na língua portuguesa tem sido a de entregar a tarefa a um escritor. Toma-se um clássico, selecionado segundo critério variado, e pede-se a alguém experiente na área que reduza, simplifique, reconte enfim aquela história, com vistas a um público menos habilitado, em geral o público jovem. Pode-se imaginar o procedimento do escritor: concentrado em seu foco, ele muda o vocabulário, altera a ordem de alguma informação, reparte uma frase mais longa em duas ou três menores, tira de cena personagens e episódios irrelevantes para o enredo, etc. Em diferentes momentos da história do século 20, escritores profissionais trabalharam como adaptações. Fizeram o serviço autores como Orígenes Lessa, Rubem Braga, Carlos Heitor Cony, entre vários outros.

 

Países que ocupam ou ocuparam posição central no Ocidente, nomeadamente a Inglaterra e a França, se ocupam há tempos de promover a exportação de sua língua e, com ela, de sua cultura letrada. Para isso, há muitos anos pensaram o tema e encaminharam algumas ações de grande interesse para nosso caso. Pode-se levar em conta um caso análogo ao da nossa Coleção É Só o Começo* (clássicos adaptados da L&PM Editores), um caso estrangeiro, que de alguma maneira inspirou nossa iniciativa: objetivamente a série de clássicos da Penguin, editora inglesa, que publica clássicos adaptados segundo níveis diferenciados de exigência vocabular (até quinhentas palavras, até mil etc. – números esses referentes ao repertório de palavras, não ao total de palavras do texto final). Tal controle responde, fundamentalmente, a uma concepção de aprendizado do inglês como língua estrangeira. (Nosso caso não é exatamente esse, mas, como veremos depois, tem muito a ver com ele.) Cabe anotar ainda que os ingleses chegaram a tais padrões numéricos após décadas de trabalho, envolvendo o mundo editorial e o mundo acadêmico – esforço que em nosso país nunca aconteceu sistematicamente; mesmo assim, na nossa Coleção conseguimos também estabelecer padrões numéricos para cada volume – o volume de nosso Robinson Crusoé tem em torno de 1.300 palavras, enquanto nosso Dom Quixote tem por volta de 2.000, por exemplo –, o que pode ajudar o professor a decidir estratégias de trabalho. Aprender a ler também é adquirir vocabulário, na prática.

 

 

 

 

Luís Augusto Fischer é professor titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e graduado (1980), mestre (1988) e doutor (1998) em Letras pela mesma universidade. Fez estágio de pós-doutorado na Sorbonne, Paris VI (2015). É autor de vários livros, entre os quais Literatura brasileira – modos de usar (2003), Dicionário de Porto-alegrês (1999), Machado e Borges (2008) e Escuro, claro: contos reunidos (2009). É crítico literário e desenvolve pesquisas na área de história da literatura brasileira e americana.

 

 

** A coleção É só o Começo é fruto de uma aposta: a L&PM Editores, contando com uma equipe de vários professores com ótima experiência no ensino de língua e literatura, aposta que a leitura de clássicos, adaptados segundo bons critérios e a melhor perspectiva sociolinguística, é acessível a todos e deve ser proporcionada a todos. Os livros da coleção foram pensados e criados para homens e mulheres, jovens ou não, que estão começando a vida de leitores. Também são muito bem utilizados por estrangeiros que desejam se familiarizar com a língua portuguesa do Brasil. Foram escolhidas histórias importantes, e a linguagem foi adaptada para facilitar a leitura. 

Meus favoritos 0

Favoritos