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EXISTÊNCIA E LIBERDADE - Paulo Perdigão

EXISTÊNCIA E LIBERDADE

Esgotado

Talvez o elogio mais completo que se possa fazer a um pensador como Sartre consista em dizer que ele soube, como nenhum outro, assumir e levar às suas conseqüências mais extremas as contradições do homem de nosso tempo. Inicialmente avesso, como se sabe, a qualquer contágio da História, seu pensamento termina se revelando o mais aberto aos entreveros de todas as latitudes em que se debate a realidade humana do nosso Século. Poderíamos, portanto, tomar sua filosofia como a expressão mais completa da plenitude crítica do homem burguês.

Realmente, tome-se os conceitos mais significativos do primeiro Sartre – indivíduo, consciência, liberdade –, e sem dificuldades maiores perceber-se-á que eles se enraízam nas próprias matrizes do assentamento burguês; aqueles conceitos, em verdade, já se impõem, até mesmo antes de Descartes, como a configuração prévia das trilhas que haveriam de ser percorridas pelo homem moderno em busca de sua instalação definitiva aqui nesta terra – “estamos assistindo ao nascimento do mundo”, resume Sartre. Evidentemente, o otimismo da Ilustração já toma hoje as suas distâncias, e tudo se faz agora de modo muito mais sofrido: é necessário atravessar sentimentos ímpios para despir o indivíduo dos resquícios que ainda o adulteram, vasculhar o absurdo para descobrir aquilo que a consciência realmente é, enfrentar a hipocrisia da má-fé para que a liberdade possa alçar-se ao nível mais maduro de sua responsabilidade. Mas tudo isso não deixa de obedecer às invenções originárias surgidas para a realizaçã o do projeto burguês, trata-se do desdobramento de um mesmo itinerário.

Dentro desta perspectiva, a tardia descoberta da História não poderia deixar de surgir como uma fatalidade. Afinal, é na dominação do espaço e do tempo, ou seja, na História, que aquele projeto burguês consegue alcançar toda a sua dimensão. E, como já era de esperar, essa quase súbita invasão pelos amplos cursos históricos não aconteceria impunemente: numa segunda fase de sua evolução, Sartre retoma as categorias básicas de seu pensamento e repensa-as em função de novas necessidades, tais como o conceito de processo totalizador ou o de razão dialética.

Mas há ainda uma terceira fase, curiosamente condensada no mais extenso de seus livros, aliás, na mais extensa das biografias escritas até hoje, a de Gustav Flaubert, que nem por isso pretende ir muito além da infância e da primeira juventude do pai do romance moderno. E é justamente este último dos grandes livros de Sartre que permite, numa retrospecção, descortinar todo o andamento de suas idéias; longe de representar uma ruptura com as teses desenvolvidas na Crítica da Razão Dialética, O Idiota da Família concretiza aquelas análises na elucidação de um caso particular, na exegese do sentido que possa oferecer uma existência singular. E afinal, a existência do indivíduo concreto resume todo o empenho desbravador do nosso filósofo ao longo do desenvolvimento de sua filosofia; tudo sempre se concentra neste ponto: o homem. Mas há evolução no seu pensamento e, portanto, certas rupturas despontam aqui e ali. Como conciliar, por exemplo, a defesa da lucidez transparente da consciência nos inícios da obra com o surto surpreendente do vécu, da vivência, que se quer opaca e se sabe sem conhecer-se? Em verdade, as análises do Idiota acabam sendo a aplicação prática de uma ampla teoria metodológica, que busca compatibilizar desde as nuanças das descrições dos primeiros textos, retomando inclusive os exames sobre a imaginação e o imaginário, até os esponsais em tudo delicados entre psicanálise e marxismo. Entretanto, lamentavelmente, toda essa ambiciosa teoria não chegou a ser desenvolvida. E a morte do filósofo, filosoficamente prematura, termina autorizando uma desolada sensação de vazio.

A questão, porém, se complica, já que em momentos essenciais de suas três fases a obra de Sartre não foi concluída. É, sem dúvida, excessivamente fácil justificar as lacunas meramente por sucessivas interrupções exteriores ou por se revelarem descomunais as tarefas assumidas. É que, muito mais que isso, elas beiram o insolúvel, tropeçam em obstáculos talvez incontornáveis. Assim, por exemplo, como conciliar o extremo individualismo da liberdade absoluta com as aporias de uma ética “da salvação e da libertação”? Ou ainda: como admitir a existência de “uma história humana, com uma verdade e uma inteligibilidade”, sem embrenhar-se nas armadilhas de algum hegelianismo ateu? Existe o recurso, é claro, à já vasta obra póstuma; seu destino, contudo, só pode estar na sua condição de póstuma, isto é, de escritos definitivamente inconclusos e não publicados pelo próprio Sartre. Acontece que, além da constatação da obviedade, faz-se mister considerar filosoficamente aquele caráter inconcluso, e i sso ao menos por uma razão que se impõe em tudo como decisiva: é que a incompletude pertence à própria condição do pensamento contemporâneo, e os problemas deixados em aberto por Sartre não são simplesmente problemas dele, inerentes à mera aventura privada de um filósofo particular; longíssimo disso, são questões que integram a própria consciência filosófica de nosso tempo, por assolarem a situação humana hodierna por inteiro. Constituem, pois, o endereço natural e a incógnita maior do pensamento filosófico de nossos dias.

Mas isso tudo se deixa melhor elucidar, possivelmente, a partir daquilo que talvez configure a aporia fundamental do pensamento sartriano, a saber: como conciliar a fragmentação e a totalidade, o gosto do singular a qualquer preço e uma síntese possível ainda que provisória? Pois o cultivo extremado da fragmentação norteia sem descanso a vocação maior de Sartre – e porventura existe algo de mais contemporâneo do que essa freqüentação obstinada das diferenças? O necessário nominalismo faz hoje tudo emaranhar-se na extensão selvagem de zonas nunca antes visualizadas. O fundamental está obviamente nessa perquirição da singularidade do singular – o pecado maior estaria no esquecimento do homem Hegel –, mas precisamente do fundo desse convívio com a singularidade brota a questão da totalidade: como inventariar os comércios entre as singularidades, a partir de que princípios justificá-los? E é no horizonte desta questão derradeira que se inscreve o ensaísmo sartriano. Seja na ética, na antro pologia, na história, na metodologia – tudo termina por se armar nas coordenadas de algum tipo de totalidade. Não basta perseguir a totalidade bruta dos singulares, aquela que leva Sartre a dizer que o caso Flaubert não passa de um só entre outros, e que igualmente importante seria a análise de seu valet de chambre. Pois a totalidade vai além disso – ela reclama necessariamente um sentido que englobe os singulares, e isso não apenas porque esse sentido já nada consegue apresentar de comum com o caráter apaziguador e reducionista do Deus metafísico; já longe disso, de modo alheio a pressões de uma transcendência atrofiante, passa a efetuar-se a busca de horizontes mais abrangentes e mais permissíveis, e resguardadores da singularidade. É nesse resguardo que se concentra, exemplarmente, a teimosia maior de Sartre.

Duas palavras sobre este livro de Paulo Perdigão. Acabo de atribuir a Sartre um traço que nele se torna uma qualidade, a teimosia. Pois Paulo Perdigão, a seu modo, também é um teimoso; e, nele, também, a teimosia se faz virtude. Quando toma um tema, explora-o até suas possibilidades mais remotas, busca virar tudo ao avesso no afã de nada deixar escapar, e jamais se perdoaria o mais leve esquecimento. Se não confira-se: veja-se o volume que publicou sobre o western clássico de George Stevens, Shane. Ou então, a longa e minuciosa análise da derrota clássica do futebol brasileiro, em 16 de julho de 1950, que, diga-se, não deixa de ser uma espécie de descrição fenomenológica. Ainda que em outro nível, é o mesmo Paulo Perdigão que encontramos agora nesta longa e detalhada análise da filosofia de Sartre. O livro concentra-se na filosofia sartriana, e recorre à obra literária do filósofo apenas de modo acessório. Resultado de anos de demorado estudo, este ensaio já nasceu definitivo dentro da bibliografia filosófica brasileira. A pesquisa é abrangente; apresenta toda a obra filosófica de Sartre, inclusive textos desgarrados, de menor importância ou esquecidos pela maioria dos intérpretes; considera também todas as publicações póstumas do filósofo até agora editadas. Isso já basta para que o ensaio de Paulo Perdigão se torne referência obrigatória para todos os que se interessem pelo mestre do existencialismo.

Paulo Perdigão despreocupa-se de qualquer arroubo interpretativo. O seu escopo está principalmente em apresentar as verdadeiras dimensões da filosofia sartriana. O livro se constitui, por isso mesmo, em um roteiro indispensável, em que o ensejo para o conhecimento mais preciso do pensamento do mestre francês se acasala perfeitamente bem com o caráter prático do livro, para situar detalhes e dirimir dúvidas. E isso não é pouco, é mesmo o ponto de partida necessário de toda e qualquer interpretação ou análise comparativa.

Quem está de parabéns com este lançamento é em primeiro lugar a bibliografia já existente sobre a filosofia de Sartre. Essa bibliografia é, sem dúvida, bastante vasta. Mas convenhamos que, em sua quase totalidade, ela deixa a desejar, por prender-se amiúde aos limites da divulgação e mesmo da vulgarização; ou são livros que falam do que realmente não entendem – como é o caso, em especial, dos ensaios mais antigos, de inspiração católica ou comunista, todos eivados de preconceitos inaceitáveis. O mais difícil é ler, e o acesso à filosofia baseia-se no aprendizado da leitura. É esse convite à leitura que Paulo Perdigão consegue, com felicidade, propor ao leitor inteligente. A bibliografia existente sobre Sartre não pode ser comparada à excelência de tantos e inumeráveis ensaios escritos sobre o seu colega Heidegger; no caso deste último, é o contrário que se verifica: são os livros de divulgação que se revelam escassos. Já sobre Sartre, são poucos os livros que realmente merecem o empenh o da leitura. Mas isso quer dizer apenas que, em face da magnitude do filósofo, sua obra continua a exigir o esforço dos estudiosos, a discussão de alto nível filosófico – e é nesta linha que o estudo de Paulo Perdigão se insere, apto que está a dar a sua melhor contribuição.

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Informações Gerais

  • Título:

    EXISTÊNCIA E LIBERDADE

  • Catálogo:
    Outros Formatos
  • Gênero:
    Filosofia
  • Cód.Barras:
    9788525405029

Vida & Obra

Paulo Perdigão

A morte do jornalista Paulo Perdigão – ocorrida em 31 de dezembro de 2006, aos 67 anos de idade – deixa uma lacuna na crítica cinematográfica. Este ofício ele exerceu com maestria por mais de 30 anos, nos jornais Diário de Notícias, Globo e JB e nas revistas Manchete e Veja. Também atuou como programador de filmes da Rede Globo de Televisão, onde ingressou em 1967, foi editor do Guia de Filmes, publicação do antigo Instituto Nacional do Cinema (INC), ...

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Opinião do Leitor

Eugenio
Joinville, SC

Sabemos que as idéias de Sartre são muito importante para os dias de hoje, onde a comodidade e o conformismo toma conta das pessoas, pois ele chama para agir, ou seja, somos ação, se quisermos alguma coisa temos que ir atras, nada vem por acaso, destino não existe, existe você e suas possibilidades de escolhas. Sobre o livro de Paulo Perdigão, a editora podia vender em PDF mesmo, a gente já ficaria agradecido.

24/04/2013 10:36:09

Agatha

Natasha
Paraná

Faço minha as palavras de Claudia

31/10/2011

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Talvez o elogio mais completo que se possa fazer a um pensador como Sartre consista em dizer que ele soube, como nenhum outro, assumir e levar às suas conseqüências mais extremas as contradições do homem de nosso tempo. Inicialmente avesso, como se sabe, a qualquer contágio da História, seu pensamento termina se revelando o mais aberto aos entreveros de todas as latitudes em que se debate a realidade humana do nosso Século. Poderíamos, portanto, tomar sua filosofia como a expressão mais completa da plenitude crítica do homem burguês.

Realmente, tome-se os conceitos mais significativos do primeiro Sartre – indivíduo, consciência, liberdade –, e sem dificuldades maiores perceber-se-á que eles se enraízam nas próprias matrizes do assentamento burguês; aqueles conceitos, em verdade, já se impõem, até mesmo antes de Descartes, como a configuração prévia das trilhas que haveriam de ser percorridas pelo homem moderno em busca de sua instalação definitiva aqui nesta terra – “estamos assistindo ao nascimento do mundo”, resume Sartre. Evidentemente, o otimismo da Ilustração já toma hoje as suas distâncias, e tudo se faz agora de modo muito mais sofrido: é necessário atravessar sentimentos ímpios para despir o indivíduo dos resquícios que ainda o adulteram, vasculhar o absurdo para descobrir aquilo que a consciência realmente é, enfrentar a hipocrisia da má-fé para que a liberdade possa alçar-se ao nível mais maduro de sua responsabilidade. Mas tudo isso não deixa de obedecer às invenções originárias surgidas para a realizaçã o do projeto burguês, trata-se do desdobramento de um mesmo itinerário.

Dentro desta perspectiva, a tardia descoberta da História não poderia deixar de surgir como uma fatalidade. Afinal, é na dominação do espaço e do tempo, ou seja, na História, que aquele projeto burguês consegue alcançar toda a sua dimensão. E, como já era de esperar, essa quase súbita invasão pelos amplos cursos históricos não aconteceria impunemente: numa segunda fase de sua evolução, Sartre retoma as categorias básicas de seu pensamento e repensa-as em função de novas necessidades, tais como o conceito de processo totalizador ou o de razão dialética.

Mas há ainda uma terceira fase, curiosamente condensada no mais extenso de seus livros, aliás, na mais extensa das biografias escritas até hoje, a de Gustav Flaubert, que nem por isso pretende ir muito além da infância e da primeira juventude do pai do romance moderno. E é justamente este último dos grandes livros de Sartre que permite, numa retrospecção, descortinar todo o andamento de suas idéias; longe de representar uma ruptura com as teses desenvolvidas na Crítica da Razão Dialética, O Idiota da Família concretiza aquelas análises na elucidação de um caso particular, na exegese do sentido que possa oferecer uma existência singular. E afinal, a existência do indivíduo concreto resume todo o empenho desbravador do nosso filósofo ao longo do desenvolvimento de sua filosofia; tudo sempre se concentra neste ponto: o homem. Mas há evolução no seu pensamento e, portanto, certas rupturas despontam aqui e ali. Como conciliar, por exemplo, a defesa da lucidez transparente da consciência nos inícios da obra com o surto surpreendente do vécu, da vivência, que se quer opaca e se sabe sem conhecer-se? Em verdade, as análises do Idiota acabam sendo a aplicação prática de uma ampla teoria metodológica, que busca compatibilizar desde as nuanças das descrições dos primeiros textos, retomando inclusive os exames sobre a imaginação e o imaginário, até os esponsais em tudo delicados entre psicanálise e marxismo. Entretanto, lamentavelmente, toda essa ambiciosa teoria não chegou a ser desenvolvida. E a morte do filósofo, filosoficamente prematura, termina autorizando uma desolada sensação de vazio.

A questão, porém, se complica, já que em momentos essenciais de suas três fases a obra de Sartre não foi concluída. É, sem dúvida, excessivamente fácil justificar as lacunas meramente por sucessivas interrupções exteriores ou por se revelarem descomunais as tarefas assumidas. É que, muito mais que isso, elas beiram o insolúvel, tropeçam em obstáculos talvez incontornáveis. Assim, por exemplo, como conciliar o extremo individualismo da liberdade absoluta com as aporias de uma ética “da salvação e da libertação”? Ou ainda: como admitir a existência de “uma história humana, com uma verdade e uma inteligibilidade”, sem embrenhar-se nas armadilhas de algum hegelianismo ateu? Existe o recurso, é claro, à já vasta obra póstuma; seu destino, contudo, só pode estar na sua condição de póstuma, isto é, de escritos definitivamente inconclusos e não publicados pelo próprio Sartre. Acontece que, além da constatação da obviedade, faz-se mister considerar filosoficamente aquele caráter inconcluso, e i sso ao menos por uma razão que se impõe em tudo como decisiva: é que a incompletude pertence à própria condição do pensamento contemporâneo, e os problemas deixados em aberto por Sartre não são simplesmente problemas dele, inerentes à mera aventura privada de um filósofo particular; longíssimo disso, são questões que integram a própria consciência filosófica de nosso tempo, por assolarem a situação humana hodierna por inteiro. Constituem, pois, o endereço natural e a incógnita maior do pensamento filosófico de nossos dias.

Mas isso tudo se deixa melhor elucidar, possivelmente, a partir daquilo que talvez configure a aporia fundamental do pensamento sartriano, a saber: como conciliar a fragmentação e a totalidade, o gosto do singular a qualquer preço e uma síntese possível ainda que provisória? Pois o cultivo extremado da fragmentação norteia sem descanso a vocação maior de Sartre – e porventura existe algo de mais contemporâneo do que essa freqüentação obstinada das diferenças? O necessário nominalismo faz hoje tudo emaranhar-se na extensão selvagem de zonas nunca antes visualizadas. O fundamental está obviamente nessa perquirição da singularidade do singular – o pecado maior estaria no esquecimento do homem Hegel –, mas precisamente do fundo desse convívio com a singularidade brota a questão da totalidade: como inventariar os comércios entre as singularidades, a partir de que princípios justificá-los? E é no horizonte desta questão derradeira que se inscreve o ensaísmo sartriano. Seja na ética, na antro pologia, na história, na metodologia – tudo termina por se armar nas coordenadas de algum tipo de totalidade. Não basta perseguir a totalidade bruta dos singulares, aquela que leva Sartre a dizer que o caso Flaubert não passa de um só entre outros, e que igualmente importante seria a análise de seu valet de chambre. Pois a totalidade vai além disso – ela reclama necessariamente um sentido que englobe os singulares, e isso não apenas porque esse sentido já nada consegue apresentar de comum com o caráter apaziguador e reducionista do Deus metafísico; já longe disso, de modo alheio a pressões de uma transcendência atrofiante, passa a efetuar-se a busca de horizontes mais abrangentes e mais permissíveis, e resguardadores da singularidade. É nesse resguardo que se concentra, exemplarmente, a teimosia maior de Sartre.

Duas palavras sobre este livro de Paulo Perdigão. Acabo de atribuir a Sartre um traço que nele se torna uma qualidade, a teimosia. Pois Paulo Perdigão, a seu modo, também é um teimoso; e, nele, também, a teimosia se faz virtude. Quando toma um tema, explora-o até suas possibilidades mais remotas, busca virar tudo ao avesso no afã de nada deixar escapar, e jamais se perdoaria o mais leve esquecimento. Se não confira-se: veja-se o volume que publicou sobre o western clássico de George Stevens, Shane. Ou então, a longa e minuciosa análise da derrota clássica do futebol brasileiro, em 16 de julho de 1950, que, diga-se, não deixa de ser uma espécie de descrição fenomenológica. Ainda que em outro nível, é o mesmo Paulo Perdigão que encontramos agora nesta longa e detalhada análise da filosofia de Sartre. O livro concentra-se na filosofia sartriana, e recorre à obra literária do filósofo apenas de modo acessório. Resultado de anos de demorado estudo, este ensaio já nasceu definitivo dentro da bibliografia filosófica brasileira. A pesquisa é abrangente; apresenta toda a obra filosófica de Sartre, inclusive textos desgarrados, de menor importância ou esquecidos pela maioria dos intérpretes; considera também todas as publicações póstumas do filósofo até agora editadas. Isso já basta para que o ensaio de Paulo Perdigão se torne referência obrigatória para todos os que se interessem pelo mestre do existencialismo.

Paulo Perdigão despreocupa-se de qualquer arroubo interpretativo. O seu escopo está principalmente em apresentar as verdadeiras dimensões da filosofia sartriana. O livro se constitui, por isso mesmo, em um roteiro indispensável, em que o ensejo para o conhecimento mais preciso do pensamento do mestre francês se acasala perfeitamente bem com o caráter prático do livro, para situar detalhes e dirimir dúvidas. E isso não é pouco, é mesmo o ponto de partida necessário de toda e qualquer interpretação ou análise comparativa.

Quem está de parabéns com este lançamento é em primeiro lugar a bibliografia já existente sobre a filosofia de Sartre. Essa bibliografia é, sem dúvida, bastante vasta. Mas convenhamos que, em sua quase totalidade, ela deixa a desejar, por prender-se amiúde aos limites da divulgação e mesmo da vulgarização; ou são livros que falam do que realmente não entendem – como é o caso, em especial, dos ensaios mais antigos, de inspiração católica ou comunista, todos eivados de preconceitos inaceitáveis. O mais difícil é ler, e o acesso à filosofia baseia-se no aprendizado da leitura. É esse convite à leitura que Paulo Perdigão consegue, com felicidade, propor ao leitor inteligente. A bibliografia existente sobre Sartre não pode ser comparada à excelência de tantos e inumeráveis ensaios escritos sobre o seu colega Heidegger; no caso deste último, é o contrário que se verifica: são os livros de divulgação que se revelam escassos. Já sobre Sartre, são poucos os livros que realmente merecem o empenh o da leitura. Mas isso quer dizer apenas que, em face da magnitude do filósofo, sua obra continua a exigir o esforço dos estudiosos, a discussão de alto nível filosófico – e é nesta linha que o estudo de Paulo Perdigão se insere, apto que está a dar a sua melhor contribuição.

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