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13/01/2012

Uma entrevista exclusiva com Chan Koonchung, autor de Os anos de fartura

Por L&PM Editores

Chan Koonchung não é um chinês qualquer. Ele não baixa a cabeça e nem desvia o olhar. Ao contrário, não apenas encara os problemas do seu país natal de frente, como escreve livros que, de certa forma, soam como uma crítica à sociedade moderna chinesa. Autor de Os anos de fartura - China 2013, Chan nasceu em Xangai e foi criado e educado em Hong Kong. Já publicou 18 livros, foi repórter de um jornal inglês e editor chefe da revista “City”, trabalhou como roteirista e produtor de cinema e é um dos fundadores do grupo ambientalista “Hong Kong Green Power”, além de membro do conselho do Greenpeace Internacional. Chan vive em Pequim desde o ano 2000 e é considerado um dos poucos observadores da China que são fluentes no inglês e que ainda vivem no continente. Nós conversamos com ele por email.

L&PM: O seu livro foi proibido na China continental. A que aspecto da obra você atribui essa censura? 

Chan Koonchung: Na China basta usar certas palavras, como por exemplo "Protestos de 1989 na Praça de Tiananmen", para que você seja proibido. Claro, você pode evitar essas palavras envolvidas em tabus, mas eu decidi que não queria nenhum tipo de autocensura.

L&PM: Mesmo sendo uma obra de ficção, o seu livro tenta recriar a maneira como você vê a China de hoje?

CK: Bem ou mal, no livro eu tento recriar os meus sentimentos e a maneira como compreendo a China contemporânea.

L&PM: Os anos de fartura é um livro provocador que convida a uma reflexão sobre a identidade de um país. Que importância tem a memória – e também o esquecimento – das pessoas como um todo no desenvolvimento de um país como a China?

CK: A China tem um passado doloroso, e o Partido Comunista é um dos grandes culpados por perpetuá-lo. E o Partido continua no poder, tentando convencer as pessoas de que sempre governou bem. Mas não é verdade. Existe um provérbio chinês que diz: "Não se esqueça do que aconteceu, porque o passado é o professor do futuro."

L&PM: Sabemos que não é apenas na ficção que diversas formas de liberdade foram e continuam sendo reprimidas pelo Estado no mundo inteiro, e também que as pessoas "são induzidas a esquecer", como você mesmo diz. Nesse cenário, o que você pensa sobre o papel da imprensa e da literatura no resgate do passado e no registro do presente? 

CK: As pessoas esquecem coisas em todo lugar, o tempo inteiro. A diferença é que com uma imprensa e uma literatura mais livres, aqueles que insistem em lembrar têm uma plataforma de onde podem gritar e chamar atenção, e talvez outras pessoas escutem.

L&PM: Seria possível comparar a felicidade eufórica dos chineses em 2013, como na história do livro, a um sentimento análogo vivido por outro país? 

CK: Às vezes a confiança equivocada nas autoridades resulta em uma felicidade eufórica. Suspeito que muitos cidadãos alemães e italianos tenham se sentido eufóricos durante os primeiros anos do nazismo e do fascismo, e a mesma coisa aconteceu na China com a Guarda Vermelha durante os primeiros dias da Revolução Cultural por volta de 1966.

L&PM: Na sua opinião, até que ponto a tristeza e a infelicidade em relação aos outros podem nos levar a reconsiderar nossa própria alegria e nossa própria satisfação, como acontece aos personagens centrais do seu livro?

CK: No romance, o protagonista – um taiwanês expatriado – leva a vida numa boa até que encontra dois velhos conhecidos que estão perdidos e profundamente infelizes. Se não fosse pelo desejo romântico que nutre por uma mulher infeliz, talvez ele nunca reconsiderasse a própria visão da realidade. Hoje, milhares de expatriados de praticamente todos os países estão morando na China. Acredito que a maioria aprendeu a fechar os olhos para a injustiça que os cerca enquanto leva a vida numa boa por aqui.

L&PM: Os anos de fartura foi comparado a fábulas como 1984, de Orwell, e Admirável mundo novo, de Huxley. Você buscou inspiração nesses dois livros? Além desses, quais são seus livros favoritos?

CK: Li esses dois livros quando eu estava na universidade, uns 40 anos atrás. Depois os reli dois anos depois que meu romance foi publicado e percebi que devo a eles mais do que eu imaginava. Meu romance foi comparado a 1984 por quase todos os resenhistas na China, onde 1984 ainda é lido e discutido em termos bastante sérios pelos intelectuais.  Um dos primeiros romances chineses modernos é um romance utópico chamado "Crônica do futuro de uma nova China", escrito por Liang Qichao, e nossa a fábula distópica seminal é a "Crônica da cidade dos gatos", de Lao She. O meu romance pertence a essa linhagem, embora esse nunca tenha sido um gênero muito robusto na China. Tenho muitos livros favoritos e o meu gosto é bastante eclético. Leio romances anglófonos em inglês e as demais obras principalmente em traduções para o chinês. Muitos dos romances de ideias e romances filosóficos canônicos foram traduzidos para o chinês – Kafka, Mann, Hesse, Camus, Sartre, Borges, Kundera...

L&PM: A sua experiência como jornalista e repórter contribuiu para a escolha da história e para a construção da narrativa? 

CK: Fiz muitas tentativas frustradas em assuntos de outras sensibilidades literárias até decidir me concentrar na escritura de Os anos de fartura. Me inspirei no que aconteceu à mentalidade chinesa desde 2008, o ano das Olimpíadas de Beijing e da crise financeira mundial. Talvez o meu lado jornalista estivesse trabalhando.

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