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01/07/2010

Tradutor de Surdo mundo explica o que fez para você não perder a piada

Por L&PM Editores

O tradutor Guilherme da Silva Braga fala ao site da L&PM sobre as dificuldades encontradas na tradução de Surdo mundo (David Lodge), que acaba de ser lançado pela L&PM Editores. Ele, que já verteu para o português textos de Kerouac, Truman Capote e Kafka, explica como buscou as soluções para as piadas e trocadilhos do livro, e também fala da busca por um título que fizesse jus ao original Deaf Sentence.

 

L&PM: Nos agradecimentos, David Lodge dedica o livro aos seus tradutores, por ter consciência das dificuldades da tarefa. Quais foram as dificuldades que você encontrou ao traduzir Surdo Mundo?

Guilherme da Silva Braga: Antes de mais nada, devo dizer que achei louvável essa idéia do Lodge de dedicar Surdo mundo aos tradutores dele. Foi uma forma muito elegante de trazer ao conhecimento dos leitores um pouquinho mais sobre o que está por trás do livro que têm em mãos e sobre a importância da tradução para a leitura e a recepção de obras literárias. Infelizmente, parece-me que tem gente demais procurando erros em legendas e traduções, enquanto são poucas as pessoas que se preocupam em memorizar o nome dos tradutores que apreciam para ler traduções boas sempre que possível. Mas todo leitor que se preza deveria adotar este último hábito: o resultado não é outro senão uma experiência de leitura cada vez mais gratificante.

Respondendo propriamente à pergunta, as maiores dificuldades na tradução de Surdo mundo foram aquelas ensejadas pela própria língua inglesa – a começar pelo título do livro, como o próprio David Lodge anuncia na dedicatória.


 

L&PM: O título original, Deaf Sentence, é um trocadilho de deaf (“surdo”) com death (“morte”). Como foi a escolha por Surdo mundo?

GSB: O título original do livro remete a death sentence – literalmente, “pena de morte”. Ao transformar death em deaf, o Lodge se sai com um título que poderíamos traduzir por “sentença de surdez” – com a palavra “sentença” mais uma vez empregada no sentido judicial do termo. A ideia é a de uma pessoa condenada não a morrer, mas a passar o resto da vida surda – exatamente a circunstância vivida por Desmond Bates, protagonista do romance. Então eu decidi que precisava de alguma referência à surdez – que afinal de contas é o tema central do livro – e também de um trocadilho para, de algum modo, perturbar o sentido habitual de algum lugar-comum, como o título original faz. Surdo mundo me pareceu ideal porque descreve exatamente o mundo em que o personagem Desmond Bates vive e se baseia no batidíssimo substantivo “surdo-mudo”. Apresentei a sugestão para o departamento editorial da L&PM e a idéia foi aprovada. Gostei. Acho Surdo mundo um título muito sonoro em português.


 

L&PM: Os diálogos de Desmond se transformam em grandes jogos de palavras. Como transpor isso para o português? Você teve que mudar muitas frases para que a proximidade sonora permanecesse?

GSB: Creio que “mudar” não é a palavra mais adequada aqui. Ou, se quisermos usá-la, temos de entendê-la como mudança necessária ­– pois as brincadeiras com as palavras são parte tão importante e integral da história quanto os próprios personagens. E, no momento em que o original apresenta trocadilhos, mal-entendidos e outros jogos de linguagem, vejo-me obrigado a apresentá-los também no texto em português. Em casos como este, a fidelidade cega ao conteúdo seria uma descaracterização grosseira da obra original.


 

L&PM: Desmond reclama de perder as piadas por causa da surdez. Como fazer com que uma tradução não perca os trocadilhos?

GSB: Como fazer com que uma tradução não perca os trocadilhos? A resposta dá um livro interessantíssimo que, infelizmente, não sei escrever. Mas, assim como o Desmond, também não gosto de perder piadas – nem gostaria que o leitor da minha tradução as perdesse, o que me obrigou a fazer certos malabarismos. Posso dar como exemplo de dificuldade tradutória o breve diálogo entre o Desmond e a Winifred na volta de uma exposição de arte contemporânea:

[Winifred] 'What did you think of the exhibition?'
[Desmond] 'What?'
[Winifred] 'The exhibition – what did you think?'
[Desmond] 'Drab, boring. Anyone with a digital camera could take those pictures.'
[Winifred] 'I thought they had a kind of interesting. . . sadness.'
[Desmond] 'Can badness be interesting?'
[Winifred] 'Sadness, an interesting sadness. Are you wearing your hearing' aid, darling?'
[Desmond] 'Of course I am.'
[Winifred] 'It doesn't seem to be working very well.'

Nem é preciso saber inglês para perceber a incrível semelhança gráfica e sonora que entre as palavras sadness e badness. Porém, se traduzirmos o trecho acima sem muitas preocupações literárias ou estilísticas, logo vamos ter problemas:

[Winifred] – O que você achou da exposição?
[Desmond] – O quê?
[Winifred] – A exposição... o que você achou?
[Desmond] – Chata, insossa. Qualquer um com uma câmera digital pode tirar fotos idênticas.
[Winifred] – Eu achei interessante aquela tristeza...
[Desmond] – O que a ruindade tem de interessante?
[Winifred] – Tristeza, eu achei interessante a tristeza. Você está usando o aparelho auditivo, querido?
[Desmond] – Claro.
[Winifred] – Parece que ele não está funcionando muito bem.

Qualquer leitor coçaria a cabeça ao ler o trecho acima. A palavra “tristeza” dificilmente seria confundida com “ruindade”, mesmo por um personagem duro de ouvido. Nesta tradução, o mal-entendido soa inverossímil. E assim perde-se a brincadeira, a piada – perde-se, em suma, tudo o que justifica a existência do trecho. Para manter a graça, o texto pede um ajuste capaz de convencer o leitor de que a situação retratada é plausível na língua em que está lendo o livro. Neste caso específico, é possível conseguir uma solução bastante natural traduzindo sadness por “desalento” e badness por “sem talento”:

[Winifred] – Eu achei interessante aquele desalento...
[Desmond] – O que tem de interessante em alguém sem talento?
[Winifred] – Desalento, eu achei interessante o desalento.

Esse é um exemplo bem prosaico das várias dificuldades que apareceram ao longo do meu trabalho no livro. Mas, por mais cheia de percalços que tenha sido, esta tradução foi também muito interessante e prazerosa. Tanto que, depois de terminá-la, preparei uma palestra chamada De Deaf Sentence a Surdo mundo: o eloqüente diálogo de surdos entre o original e a tradução do romance de David Lodge, apresentada em março para um pequeno grupo de tradutores e pessoas interessadas aqui em Porto Alegre. Surgindo a oportunidade, pretendo repetir a dose em um futuro não muito distante, seja aqui mesmo ou em outro lugar.

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