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13/06/2011

Tradutor de Nietzsche fala sobre o mais recente título do filósofo na Coleção L&PM Pocket

Por L&PM Editores

Acaba de chegar A filosofia na era trágica dos gregos,o quinto volume de Friedrich Nietzsche na Coleção L&PM POCKET. A tradução e a apresentação do livro são do bacharel em filosofia pela Unicamp Gabriel Valladão Silva. Profundo conhecedor da obra de Nietzsche, Gabriel concedeu uma entrevista à L&PM sobre este que ele considera "um livro sobre originalidade, sobre a essência do espírito filosófico e que, embora trate de um tema muito específico e difícil, é de alcance universal".

 

L&PM: Para o leitor "comum", o próprio nome de Nietzsche pode causar um certo estranhamento. Na sua opinião, todas as pessoas deveriam ler este livro? Por quê?

Gabriel Valladão Silva: O livro é instrutivo para qualquer um que se disponha a lê-lo, porque as questões filosóficas são naturais para todas as pessoas. Apenas não costumamos ter tempo nem disposição para refletir sobre elas. Esforçamo-nos, normalmente por meio de religião ou de uma valoração excessiva da vida material (igualmente uma religião materialista), ou por vícios diversos, em afastá-las para que não nos incomodem. O estilo franco e mesmo agressivo de Nietzsche é, sem dúvida, um dos melhores meios para despertar o filósofo dormente em cada um de nós, "leitores comuns" - daí a sua grande popularidade não somente entre os filósofos, mas entre o público em geral.



L&PM: Nietzsche é difícil de ser lido? 

GVS: Sim e não. Nietzsche, por abdicar em grande medida da forma sistemática em suas ideias, torna-se mais fácil e mais difícil. Mais fácil porque seus aforismas são belos e impressionates, porque suas ideias são carregadas de uma força retumbante que toca até as mentes e corações (intelectos e vontades) mais rudes e indomados. Mais difícil, por outro lado, porque o seu pensamento (propositadamente) não se deixa apreender como um todo. A falta de um sistema definido e a desconfiança da própria razão e da liguagem que a exprime tornam difícil "conhecer" ou "falar sobre" Nietzsche. Essa ambiguidade garante a seu pensamento uma riqueza interpretativa comparável à da arte, o que torna Nietzsche um dos autores mais lidos e discutidos na atualidade.

 

L&PM: Nietzsche é difícil de ser traduzido?

GVS: Considerando-se que se trata de um texto filosófico, com um teor conceitual denso, este é, sim, um texto que exige cuidado e precisão ao ser traduzido. Mas, por outro lado, se comparado com a totalidade da filosofia alemã, A filosofia na era trágicados gregos é leve e mesmo divertido. Creio que o maior desafio é passar o tom e o estilo de Nietzsche para o português. É um estilo muito peculiar, seu uso dos sinais de pontuação é muito característico, e exige esforço para ser transposto ao português. Por outro lado, é essa dificuldade que torna o trabalho de tradução interessante e divertido.



L&PM: O que mais chamou a sua atenção neste livro?

GVS: A filosofia na era trágica dos gregos é um livro sobre originalidade, sobre a essência do espírito filosófico. Por isso que eu o considero - embora trate de um tema muito específico de difícil - de alcance universal. O foco não está na interpretação filológica e hermenêutica, em um destrinchamento de sentido e um espremer dos fragmentos pré-socráticos em busca de algumas gotas de "verdade". Nietzsche utiliza-se da imagem dos longínquos filósofos pré-socráticos para formar um arquétipo do filósofo, de suas preocupações, de seu modo de proceder, escrever e portar-se. É um livro sobre o valor da personalidade e sobre a desconfiança acerca do "pré-fabricado", algo que frequentemente escapa a nós, que aceitamos - muitas vezes de modo inconsciente - opiniões correntes como verdades eternas. O filósofo pintado por Nietzsche é incansável, não se dá por satisfeito até que ele mesmo tenha construído para si uma visão do mundo que lhe seja convincente. Como já dizia Schopenhauer, a grande inspiração do jovem Nietzsche em matéria de filosofia: para o filósofo verdadeiro, a sabedoria não está somente nos livros e na erudição - esta não vale nada sem a vivência e a experiência disso que chamamos "realidade".


L&PM: Nietzsche diz que "devemos sempre pensar por conta própria". Esta conclusão veio a partir do seu estudo dos gregos?

GVS: Como disse acima, Nietzsche não busca extrair dos fragmentos pré-socráticos algum sumo de "verdade essencial". Creio muito antes que ele tenha visto nesses filósofos um material rico para desenvolver a sua própria ideia do que seja o filósofo. Como eu mesmo apontei na apresentação ao texto, a filosofia pré-socrática é tão remota em relação a nós que se torna difícil distinguir a "verdade" nela contida de construções posteriores atribuídas a ela. Bons exemplos disso são o famoso teorema te Tales e as descobertas de Pitágoras no campo da música: hoje sabemos que não há nenhuma evidência que justifique essas atribuições, mas, não obstante, Tales e Pitágoras se tornaram símbolos do conhecimento geométrico e musical.

Em minha opinião, é essa a empreitada de Nietzsche ao realizar essa incursão no pensamento pré-socrático: Nietzsche não está envolvido na extração daquele mínimo de "verdade" que podemos aferir a partir dos fragmentos pré-socráticos. O seu estudo dos pré-socráticos tem como fim central uma crítica à própria contemporaneidade - os pré-socráticos são apenas as ferramentas mais apropriadas (justamente por sua autoridade e maleabilidade interpretativa) para expressar essa crítica. Eles são os mais apropriados por serem os "primeiros", uma vez que Nietzsche defende que todo filósofo deve (pelo menos em algum grau) ser um "primeiro", isto é, "pensar por conta própria".

 

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