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30/09/2011

A escritora Ana Mariano fala sobre Atado de ervas, seu primeiro romance

Por L&PM Editores

Ana Mariano conhece bem a arte de escolher palavras e, com elas, criar cenas de profunda beleza. Em Atado de ervas, seu primeiro romance recém-lançado pela L&PM Editores, Ana narra uma saga familiar nas fronteiras vazias dos pampas. Apesar de contar uma história de uma região isolada do Brasil, na era pré-televisão, Ana Mariano constrói uma trama universal e mostra, sobretudo, como se vivia e morria em uma estância de um passado não tão distante, em que os modos de vida e o espírito da época também são protagonistas. À trama ficcional, a autora mistura personagens históricos importantes do Brasil, como Getúlio Vargas e João Goulart. Em um romance, Ana cria momentos de pura poesia.
Leia a entrevista com a autora.


L&PM Editores – Quando e como surgiu a ideia de escrever Atado de ervas? Como foi o processo de criação? Qual o significado do título?
Ana Mariano - Depois de publicar Olhos de cadela, vivi, como escritora, um período indefinido. Sentava para escrever um poema e o que saia eram textos em prosa que eu pensava serem contos. Aos poucos, me dei conta de que aqueles “contos” conversavam entre si, continuavam-se. Aos poucos, seus personagens foram se entrelaçando, ganhando forma, adquirindo vozes. Desconfiada de que alguma coisa diferente estava por nascer, criei no computador um arquivo chamado Possível Romance e, sem pensar muito, fui colocando ali os textos em prosa.
Trabalhei assim, entre a prosa e a poesia, por uns dois anos. Depois, é claro, quando o tal Possível Romance tomou corpo, foi preciso fazer com que aquela variedade de pessoas e situações fizesse sentido, formasse uma história.
Como quem junta ervas e capins num atado, combinando cores e texturas, comecei a amarrar todas aquelas pessoas e histórias. Foram mais dois anos de trabalho. Talvez a ideia do título tenha saído daí, dessa forma caótica como o romance foi gerado. Pode ter vindo também dos atados de ervas que uma das personagens, Miguelina, a benzedeira, usa ao longo da história, para curar ou para matar .

L&PM – Você cresceu numa fazenda? Como a sua história e suas memórias estão presentes no livro? Por que a opção pelas diferentes vozes?
Ana - De forma consciente ou inconsciente minhas memórias estão em tudo que escrevo. Acho que é assim com todos os escritores. Basta ler a autobiografia do Gabriel García Marquez para ver que sua vida está toda em seus livros. Transformada, é claro, mas presente. Mal comparando, comigo acontece parecido.
Até os 11 anos vivi na estância, estudava em casa, com o pai e a mãe. Meu irmão, por ser 7 anos mais velho do que eu, já vivia e estudava em Porto Alegre. Ele e os primos vinham apenas nas férias. As únicas crianças com quem eu tinha contato eram os filhos da peonada. Meus melhores companheiros sempre foram adultos: o peão de pátio, a cozinheira, a lavadeira. 
Borges dizia que um livro só termina por morte do autor ou acidente de edição. A gente nunca fica totalmente contente com o que escreve, mas ter conseguido fazer essa variedade de vozes me agrada. Embora inventados, todos os personagens estavam em mim há tantos anos que não foi difícil entender como eles queriam se mostrar. Mesmo quando narrados em terceira pessoa, cada personagem tem sua própria voz, seu jeito especial e único de pensar, falar e agir.

L&PM – O romance narra a saga de quatro famílias, como essas histórias se relacionam?
Ana - Quando eu criei o tal arquivo — Possível Romance — não sabia dizer o que estava escrevendo. Sabia apenas que, se dali saísse um livro, seria sobre um tempo, um lugar e seus habitantes. O lugar seria o campo e as cidades a ele relacionadas, ou porque ficavam próximas ou porque eram freqüentadas pelos estancieiros ricos durante as férias. O tempo seria o anterior à televisão, quando as novelas ainda não haviam introduzido no campo os costumes do centro do país.  
Queria falar de um mundo no qual não havia telefone, as notícias e os recados pessoais chegavam pelo rádio e, porque as estradas eram precárias, o trem era fundamental e, nas emergências, o meio mais rápido de se consultar o médico era pelo telégrafo. 
Neste mundo aparentemente tranquilo, porém, como em todos os outros, aconteciam pequenas e grandes tragédias, assassinatos, traições, algumas pessoas progrediam, outras ficavam para trás, algumas amavam, outras matavam. 
Para mostrar tudo isso num período de pouco mais de 30 anos (de 1928 a 1963) o jeito foi inventar várias famílias e misturá-las. 

L&PM – Você realizou alguma pesquisa histórica?
Ana - Embora Atado de ervas não tenha a pretensão de ser um romance histórico, tentei fazê-lo o mais real possível. A pesquisa que fiz, além de grande, foi variada. Consultei técnicos em saúde animal para saber como se lidava com o gado nas diferentes épocas, que vacinas existiam e eram aplicadas, entrei em contato com o Teatro Municipal do Rio de Janeiro para confirmar datas de espetáculos, consultei os inúmeros diários da nossa fazenda desde a década de vinte , me informei sobre safras e colheitas, divisão de invernadas, as rotas dos trens, os costumes do povo, as formas e palavras das benzeduras.
Com tudo isso em mãos, foi preciso ter cuidado para que o livro não se transformasse num manual. As informações precisaram ser diluídas. Muitas páginas de pesquisa transformaram-se em algumas palavras numa frase, em detalhes cujo objetivo é dar livro verossimilhança.
Claro que devem existir erros, eles são inevitáveis, a gente escreve sobre ontem com a cabeça de hoje e existem muitas “pegadinhas”. Dou um exemplo: fui à Europa em 1965 pela Varig.
Porque foi assim comigo, sem nem mesmo pensar, fiz um dos personagens ir comprar passagem na loja da Varig no Champs Élysées.
Na revisão, descobri que, em dezembro de 63, a Varig, embora tivesse voos para o exterior, não fazia ainda a rota Paris/Rio. Quem a fazia era a Panair e com escala em Dacar. Desse detalhe, dei-me conta a tempo. De outros, talvez não. Tudo bem, é só uma história.

L&PM – Você foi influenciada por escritores como Erico Verissimo ou Luiz Antonio de Assis Brasil, autores que já escreveram sobre sagas familiares no Rio Grande do Sul? Quais suas outras influências?
Ana - Sem sonhar em ter a competência de um Erico ou de um Assis Brasil, reconheço, agradecida, suas influências, assim como reconheço a influência de muitos outros, como, por exemplo, Gabriel García Marquez. Tudo o que ele conta em Cem anos de solidão poderia ter acontecido na minha família e, se eu reconheço como familiares Úrsula, Remédio e os muitos Aurelianos e José Arcadios, é porque, com certeza, eles influenciaram minha escrita. 

L&PM – O seu livro anterior Olhos de cadela é uma obra poética. Qual a maior poesia de Atado de ervas?
Ana - Quem, como eu, escreve poesia, precisa ter muito cuidado. Assim como poesia não é “prosa empilhada”, prosa não é “poesia esparramada”. Em minha opinião, um texto em prosa que seja apenas poético não é um bom texto. Existem pequenas partes do Atado que são pura poesia. O parágrafo que inicia o livro (uma espécie de resumo poético do todo), o sonho do personagem Joaquim na sua última noite no rancho da mãe, são dois exemplos. No mais, embora sendo poeta, tentei escrever prosa eficiente.

Ana Mariano autografa Atado de Ervas no dia 05 de outubro em Porto Alegre.

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