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10/06/2011

Mark Harris, autor de Cenas de uma revolução, conversa com a L&PM

Por Carolina Marquis

O livro Cenas de uma revoluçãodo jornalista norte-americano Mark Harris, é um presente da L&PM Editores para os apaixonados pela sétima arte. O livro revela o universo por trás dos filmes Bonnie e Clyde, A primeira noite de um homem, Adivinhe quem vem para o jantar, Doutor Dolittle e No calor da noite, os cinco filmes que concorreram ao Oscar de 1967, mudaram e moldaram a Hollywood que hoje conhecemos.
Mark Harris conversou com a L&PM e contou como foi o processo de produção e escrita de Cenas de uma revolução. Imperdível!

 

Foto de Michele Romero


L&PM Editores - Que diferenças os filmes indicados ao Oscar de 1967 têm em relação aos que vieram antes e depois deles?
Mark Harris
- Depende do filme. 1967 foi um marco para o cinema americano. Foi quando diretores como Arthur Penn (Bonnie e Clyde) e Mike Nichols (A primeira noite de um homem) basearam-se em toda a emoção que sentiam ao assistir filmes europeus e todas as frustrações que tinham com a rigidez dos estúdios americanos para levar os filmes de Hollywood rumo a uma nova era – com mais franqueza sobre sexo e violência e muito mais energia, inovação visual e temática. Entretanto, um par de outros candidatos – Adivinhe Quem Vem Para Jantar e Doutor Dolittle – eram muito parecidos com os filmes que Hollywood vinha produzindo nos últimos 15 anos.
 
L&PM Editores - Para escrever este livro, quantas vezes você assistiu cada filme?
Mark Harris - Eu provavelmente assisti cada filme cinco ou seis  vezes até o fim – mas assisti partes de cada filme, como a cena final de Bonnie e Clyde, ou a montagem em que Benjamin começar um affaire com a Sra. Robinson em A primeira noite de um homem, umas 15 ou 20 vezes.
 
L&PM Editores - Quanto tempo você gastou entre a primeira e a última palavra do livro?
Mark Harris
- Eu sou jornalista há mais de 20 anos, então sou um escritor muito rápido: desde a primeira palavra até a última, foram cerca de cinco meses. As pesquisas e entrevistas que fiz para o livro levaram mais tempo do que a escrita em si – do início ao fim, a investigação durou três anos.

L&PM Editores - Quais os aspectos conectam estes cinco filmes?
Mark Harris
- Os cinco filmes estão conectados, mas não muito. É difícil olhar para um longo e tradicional musical infantil, como Doutor Dolittle, e imaginar que ele se originou a partir do mesmo universo de Bonnie e Clyde ou A primeira noite de um homem. Esta foi, inclusive, uma das razões que me instigou a fazer o livro – o fato de que os filmes pareciam representar um imenso rompimento entre o velho e o novo em  Hollywood. Além do fato de que todos os filmes terem sido nomeados para o Prêmio de Melhor Filme, a única coisa que eles têm em comum é que todos são americanos. Isso não acontecia há cerca de cinco anos antes de 1967.  Essa foi uma grande oportunidade para eu usar os cinco filmes e examinar o cinema de Hollywood, entre 1963 – que é quando alguns dos filmes começaram a ser desenvolvidos –até 1968, que foi quando a cerimônia de premiação aconteceu.

L&PM Editores - Em sua opinião, qual é o fato mais emocionante que o Cenas de uma revolução revela?
Mark Harris
- Eu não tenho certeza se isso conta como um fato, mas para mim, o que é mais interessante é o quanto uma única decisão pode dar forma a um filme. Como seria Bonnie e Clyde se François Truffaut e Jean-Luc Godard, os dois primeiros diretores escolhidos para filmar, tivessem dito “sim”? Ou se Warren Beatty tivesse seguido o seu instinto original de lançar Bob Dylan e Shirley MacLaine nos papéis principais? Ou se Mike Nichols não tivesse encontrado  Dustin Hoffman e tivesse lançado Robert Redford, que realmente queria o papel? Acho que a maior revelação na pesquisa foi o fato de que eu ter entendido que um filme não é simplesmente o produto de um escritor ou diretor ou a visão do produtor, mas sim milhares de circunstâncias e os acidentes, compromissos, infortúnios e pequenas sortes.

L&PM Editores - Qual é o personagem real  mais fascinante  em seu livro?
Mark Harris
- Há muitos. Com certeza eu estava fascinado pela vontade e determinação e insistência na própria visão que Warren Beatty levou a Bonnie e Clyde e Mike Nichols ao A primeira noite de um homem, mas se eu tivesse que escolher uma, eu diria Sidney Poitier. Ele estrelou em dois dos cinco filmes – No Calor da Noite e Adivinhe quem vem para o jantar; e quase co-estrelou um terceiro, Doutor Dolittle, e ele ainda terminou 1967 como a estrela número um de bilheteria dos EUA. Esta foi a primeira vez que um ator negro ocupou esse cargo.  Ele ia percebendo que estava sendo rejeitado pelos cinéfilos mais jovens, ao mesmo tempo em que estava sendo finalmente abraçado pelos americanos mais velhos. Para ele, ser visto como um símbolo da América negra toda vez que fazia um filme, era uma posição dolorosa e difícil. Poitier enfrentou  tudo isso com grande força e estoicismo.

L&PM Editores - Como você conseguiu entrevistar tanta gente e quanto tempo demorou?
Mark Harris
- Demorou cerca de três anos para entrevistar todas as pessoas – eu conversei com cerca de 100 pessoas para o livro, todo mundo que tinha algo a ver com os filmes ou com os principais personagens sobre quem eu estava escrevendo. Eu tive muita sorte de que a maioria das principais pessoas que ainda estavam vivas – Warren Beatty, Arthur Penn (que morreu no ano passado), Mike Nichols, Dustin Hoffman, Norman Jewison, Robert Benton – foram muito generosas não apenas com seu tempo, mas com a sua disponibilidade em rever com uma nova perspectiva, o trabalho que haviam feito 40 anos antes.
Foi realmente muito difícil encontrar as pessoas que não eram famosas – editores, figurinistas, diretores de arte, produtores associados, assistentes pessoais. A maioria das pessoas com quem conversei tinham entre 70 e 95 anos e muitos deles haviam se aposentado há muito tempo. Às vezes demorava dias de pesquisa e chamadas telefônicas para descobrir se eles ainda estavam vivos –, mas uma vez que os encontrava, eles se revelaram algumas das pessoas mais interessantes que entrevistei.
 
L&PM Editores - As entrevistas foram presenciais ou por e-mail, telefone?
Mark Harris
- A maioria das entrevistas foi por telefone, porque as pessoas com quem falei estavam espalhados por todo o país. Mas eu fiz algumas das entrevistas mais importantes Beatty, Hoffman, Penn e Nichols, entre outros – pessoalmente. Eu realmente não gosto de fazer entrevistas por e-mail porque você tem que pensar em todas as suas perguntas com antecedência e você não pode fazer uma pergunta a partir do que a pessoa conta. Felizmente para mim, a geração de pessoas que eu entrevistei não estava muito interessada em e-mail.

L&PM Editores - O livro tem histórias tão forte que às vezes parece ser ficção. É tudo verdade mesmo?
Mark Harris
- A resposta fácil para essa pergunta, é “claro que é tudo verdade”! A resposta mais complicada é que a história é tão verdadeira quanto as memórias das pessoas envolvidas. Sempre que foi possível, tentei verificar o que me foi contada de forma independente, utilizando material de arquivo sobre os filmes –memorandos, correspondências, telegramas, e assim por diante. Quando duas pessoas me contavam relatos conflitantes sobre a mesma história, eu tentei apresentar as duas versões, ou pelo menos  reconhecer que algo estava em disputa. Há uma grande quantidade de material que eu deixei de fora ou por não poder confirmar, ou por não ter confiado completamente. Então, sim, eu sinto que posso dizer que o livro, assim como as histórias, são precisos.

L&PM Editores - O que você acha que o Oscar e a Academia representam hoje em dia?
Mark Harris
- Eu acho que eles representam hoje exatamente o que  representavam em 1968. Eles são um instante, uma cápsula do tempo, do que as pessoas que trabalham na indústria do cinema acham que representa, naquele momento, o melhor trabalho do ano. Eles não são, certamente, um barômetro infalível de qualidade – às vezes acertam, às vezes erram, mas isso sempre aconteceu. E, a partir de uma perspectiva histórica, os anos em que todo mundo acha que o julgamento foi equivocado, talvez sejam mais interessantes, porque, então, você tem que analisar por que isso aconteceu e por que eles tinham tanta certeza de que estavam certos. Às vezes, isso pode levar a perguntas  mais amplas e profundas  sobre a cultura em torno do cinema. Eu adoro assistir ao Oscar e eu adoro escrever sobre ele, mas não devemos levá-lo demasiadamente a sério – nenhum grande filme jamais tornou-se menos importante porque perdeu um Oscar.

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