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09/05/2010

Juan Gabriel Vásquez, autor de Os informantes, fala ao site da L&PM

Por L&PM Editores

Os informantes é o primeiro romance de Juan Gabriel Vásquez, e também o primeiro a ganhar uma edição brasileira, após ter sido lançado em doze países. O livro foi eleito um dos mais importantes para a Colômbia nos últimos 25 anos, e retrata de forma entrelaçada as histórias daquele país e a de pai e filho. Em entrevista exclusiva ao site da L&PM, Vásquez fala sobre como surgem os temas e os personagens de seus livros, a importância de ter saído da Colômbia e sobre suas influências.

L&PM – Como foi o processo de escolha do tema da Segunda Guerra Mundial na Colômbia para ambientar a história de Os informantes?

Vásquez – Não sou um escritor que “escolhe temas”. A origem do romance está em uma experiência minha: conheci uma mulher alemã e judia que chegou à Colômbia em 1938 e que, em 1999, me contou a história de sua vida. Essa mulher é a base de Sara Guterman, a personagem do romance. O que ela contou me acompanhou por vários anos, até que tive que escrever o romance, um pouco para afastar de mim as imagens e as histórias que havia acumulado na cabeça. A pessoa não escolhe o tema, o tema é que escolhe a pessoa.


L&PM – O tema das represálias antialemãs, concretizada nas listas negras com nomes de imigrantes alemães, no período anterior e durante a Segunda Guerra Mundial, parece ser pouco explorado pelas artes e pouco conhecido do público. Você concorda? Como você tomou conhecimento desse fato do passado colombiano (alemães vivendo enclausurados em hotéis etc.)? Na sua opinião, por que essa temática do passado recente não só da Colômbia, mas da América Latina como um todo, é um tabu?

Vásquez – Sim, concordo. Estes acontecimentos estavam esquecidos quando Os informantes foi publicado. Havia um livro-reportagem intitulado Colombia nazi, um extraordinário trabalho que fazia referência, em algumas páginas, aos “campos de confinamento” para cidadãos inimigos. Mas não mais do que isso. Um personagem do meu romance diz isso claramente: “Estas coisas já não interessam a ninguém”. Foi muito difícil fazer as pessoas daquela época falarem, porque queriam esquecer. Esquecer é um impulso muito humano, e um romancista deve entender esse sentimento, porém nunca aceitá-lo.


L&PM – Este é o seu primeiro livro publicado na Espanha depois de deixar a Colômbia. Como é falar de seus conterrâneos com um continente de distância?

Vásquez – É muito mais simples. Eu tenho falado com frequência sobre como foi a experiência de escrever sobre a Colômbia. Minhas primeiras histórias são situadas na Europa, nos lugares que conheço e onde morei: França, Bélgica. A Colômbia não aparecia nelas por uma razão muito simples: eu cresci com a convicção de que devemos escrever sobre o que conhecemos, e eu sentia que não conhecia a Colômbia, não a entendia. Quando cheguei à Espanha, os anos de distância modificaram essa percepção, e um dia me dei conta que a melhor razão que temos para escrever sobre algo é, precisamente, não entendê-lo, não conhecê-lo. A melhor literatura sai das perguntas e das incertezas, não de um conhecimento que alguém transmite como um pedagogo.

 

L&PM – De que maneira ocorreu a construção da relação pai e filho em sua trama? Os personagens foram baseados em alguém que você conhece?

Vásquez – Todos os meus personagens se baseiam em alguém que eu conheço, incluindo, claro, eu mesmo. Criar um personagem é interpretar milhares de coisas vistas e reuni-las todas em um mesmo lugar, e isso é o que acontece com a relação entre os dois Gabriel Santoro. Agora, um dos temas importantes do romance é o conflito entre o passado e o presente, não é verdade? E a relação pai e filho é uma das formas mais estimulantes que esse conflito pode tomar. São duas maneiras de ver o mundo que nunca se entenderão.


L&PM – Você acredita que a culpa, de alguma forma, pode ser reparadora?

Vásquez – Não sei. Escrevi Os informantes para tentar descobrir, e não ficou muito claro.


L&PM – Em Os informantes, assim como em Historia secreta de Costaguana, as histórias privadas e públicas se encontram e se misturam. Como a ficção se beneficia desses cruzamentos?

Vásquez – Não é bem a ficção que se beneficia, mas sim a nossa compreensão do mundo. O romance pode ir onde a historiografia não chega; pode nos falar de nossa relação com isso que chamamos de sociedade em termos que não encontramos em nenhuma outra forma de narrativa. A sociedade é feita de indivíduos, não de coletividades e nem de ideologias, e isso é algo que o romance honra e presta tributo. E, ao fazê-lo, ajuda a nos compreendermos como produto de nosso passado e também, sem falsa retórica, como agentes de nosso futuro. Não é pouca coisa, me parece.


L&PM – Os informantes foi eleito como um dos romances mais importantes da Colômbia nos últimos 25 anos. A seu ver, o que mais sensibiliza os leitores?

Vásquez – Não sei, não sou eu quem deve dizer. Porém, escrevo para leitores que se parecem comigo, que têm mais ou menos os mesmo interesses (literários, morais) que tenho. Escrever ficção é, entre muitas outras coisas, o ato de compartilhar nossas dúvidas com os outros.


L&PM – Sua literatura foi comparada a de Philip Roth e de Ian McEwan. Quais são os escritores que você admira?

Vásquez – A lista é longa e varia. Vai de Shakespeare e o autor de Lazarillo de Tormes até Nabokov, Bellow, Borges, Sebald, Vargas Llosa, John Banville, Javier Marías, e todos eles passando por Flaubert, Dostoiévski, Tchékhov, Proust, Camus. Todos me influenciaram da melhor forma: mostrando-me que era possível fazer algo que eu até então acreditava ser impossível e proibido. Que mais se pode pedir a um escritor?

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