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18/06/2012

Escritor Juan Gabriel Vásquez em entrevista para O Globo

Por L&PM Editores

Considerado um dos mais promissores escritores da América Latina, o colombiano lançará livro na 10ª FLIP

<br><br>Juan Gabriel Vásquez lança em Paraty seu segundo livro editado no Brasil, o romance "História secreta de Costaguana"<br><br>Foto: Divulgação

Juan Gabriel Vásquez lança em Paraty seu segundo livro editado no Brasil, o romance "História secreta de Costaguana"

RIO - Nos últimos anos, as listas dos escritores mais promissores da América Latina costumam incluir o nome de um colombiano de 39 anos, radicado em Barcelona, fã de futebol e dos romances de Joseph Conrad e Philip Roth. Na última sexta-feira, lá estava de novo Juan Gabriel Vásquez, o único colombiano na relação preparada pela jornalista brasileira Ingrid Bejerman para o site do diário britânico "The Guardian".

Vencedor do Prêmio Alfaguara 2011 e elogiado por grandes nomes da literatura em língua espanhola, como Carlos Fuentes (morto em maio) e Enrique Vila-Matas, Vásquez virá ao Brasil para participar da décima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), numa mesa com o espanhol Javier Cercas, no dia 5 de julho, às 17h15m. Na ocasião, lançará o romance "História secreta de Costaguana", seu segundo livro publicado por aqui, após "Os informantes" (ambos pela editora L&PM).

No romance — que rendeu a Vásquez os prêmios Qwerty (Barcelona) e Fundación Libros & Letras (Bogotá) —, José Altamirano conta a história de sua família misturada a alguns dos momentos mais extraordinários da Colômbia no século XIX e no início do século XX. Ele explora os embates recorrentes entre conservadores e liberais e a conturbada construção do Canal do Panamá, que pertencia à Colômbia e se tornou independente em 1903.

Sem preocupação com a fidelidade histórica, o romance usa e distorce os por vezes absurdos caminhos da Colômbia, chamada pelo irônico narrador de Aquela Merda de Lugar. Altamirano conta sua vida de Londres, onde tem um encontro com Joseph Conrad — autor de "Nostromo", romance que fala de um país inventado, Costaguana, inspirado na Colômbia. Em entrevista por telefone, de Barcelona, Vásquez fala da influência de Conrad em sua forma de escrever sobre seu país, da mescla de ficção e História em sua literatura e da total distinção de sua visão de mundo, formada em Bogotá, do realismo mágico tipicamente caribenho do mais conhecido dos autores colombianos, Gabriel García Márquez.

No fim de "História secreta de Costaguana", você fala que o livro talvez tenha nascido durante a leitura de "Nostromo", de Joseph Conrad. O que nessa obra o levou a escrever o romance?
JUAN GABRIEL VÁSQUEZ: Quando li "Nostromo", Conrad tinha se tornado uma figura muito importante para mim. Ele foi provavelmente o primeiro escritor que me fez pensar que eu podia falar da História do meu país, ainda que ela sempre tenha me parecido confusa, contraditória, obscura. Vi que essas coisas não eram problemas, ao contrário. Além disso, no momento da leitura de "Nostromo", já estava há uns anos preocupado porque não sabia como escrever sobre a Colômbia. Tinha se tornado um problema buscar o idioma, o registro para escrever sobre meu país, e Conrad transformava a História colombiana em outra coisa. Inventava um país que não existe, Costaguana, para contar uma história que era basicamente a revolução pela qual o Panamá se separou da Colômbia. Mas ele também falava do imperialismo, do papel do homem na História, de como ela afeta os indivíduos. A leitura de "Nostromo" foi a união de duas obsessões: minha obsessão por Conrad, os ensinamentos que me deixara como romancista, e minha obsessão pela História colombiana. A partir desse momento, não me restou outro remédio senão escrever o romance.

Ao mesmo tempo em que Conrad é um personagem fundamental do livro, está ali como uma sombra, nos esquecemos dele até que o narrador nos relembre. Como fez para que ele não se tornasse maior do que a história que você tinha para contar?
Tinha a clareza de que Conrad era um ponto de partida. O tema do romance sempre foi a História colombiana e a relação do homem com a História. Quando me dei conta de que tinha nas mãos um personagem real e um escritor que admiro muito, o grande desafio foi não fazer uma homenagem a ele. Se o livro trata de personagens da vida real, é preciso encontrar estratégias literárias para colocá-los no mesmo nível dos personagens fictícios, e para isso é necessário procurar todos os seus defeitos, seu lado humano. Eu me concentrei nas debilidades de Conrad para conseguir humanizá-lo em vez de colocá-lo num pedestal.

Ainda que no livro seja central a História da Colômbia, com a construção do Canal do Panamá e a independência deste país, "História secreta de Costaguana" não é um romance histórico. É mais difícil fazer literatura a partir da pesquisa de fatos reais?
A única obrigação que um romance tem quando se enfrenta com a História real é não ser redundante, não contar o que já sabemos, o que se pode encontrar num manual de História ou num ensaio econômico ou sociológico. (O escritor tcheco Milan) Kundera diz que a única razão de ser do romance é dizer o que só o romance pode dizer. Parte da ética do romancista é pensar que os romances não dão conta da realidade, mas criam outras. Se escrevo um romance sobre fatos históricos, os leitores têm que encontrar nele algo que não encontrariam em nenhum outro lugar. E este é um grande desafio. A construção do Canal e a independência do Panamá, como estão contadas no meu romance, não existem em um livro de História, seja porque me concentro nas vidas privadas de personagens, seja porque me dei a liberdade de distorcer a História conhecida. Por exemplo, um presidente colombiano, José Vicente Concha, na vida real morreu em Roma nos anos 1920, e no meu livro morre logo depois de negociar o Tratado do Canal, na primeira década do século XX. Queria criar uma espécie de símbolo com o Canal de Panamá e torná-lo um objeto maldito, que mata todos os que se aproximam dele. Alguns historiadores me procuraram para dizer que eu estava errado.

E no romance também muitas vezes a vida privada parece mais importante do que a grande História.
Este é o campo do romance: você tem que construir histórias de indivíduos. O desafio especial é que eu não estava escrevendo um romance convencional sobre a História, em que simplesmente pudesse contar a vida privada de uma testemunha dos acontecimentos. Sabia que em alguma medida era um romance de ideias, um romance filosófico sobre a escritura da História e sua relação com a ficção, sobre como se distorce a realidade quando escrevemos a História, que é o que acontece com Miguel Altamirano (pai do narrador, José Altamirano).

Miguel Altamirano, chamado de Último Renascentista pelo narrador-filho, quer impor sua verdade de progresso por meio de seus artigos de jornal. Um jornalista também é personagem de "Os informantes", seu primeiro romance. O que lhe interessa na figura do jornalista?
Me interessa muito, de maneira quase obsessiva, a relação entre a palavra e a realidade. Nossa percepção do mundo está moldada pelas histórias dos jornais e da TV, pelas histórias que nos chegam por nossos pais e avós. E os narradores mais presentes na nossa vida cotidiana são os jornalistas. Sempre me interessou muito essa espécie de poder que tem o jornalista, ainda que não seja muito consciente dele, que não o use com segundas intenções. Em "Os informantes" o tratamento era outro. O personagem é jornalista porque há uma tensão entre duas maneiras de ver o mundo: as histórias escritas de Gabriel Santoro, o filho, e a palavra falada de seu pai, que é professor de oratória e retórica.

Há muita ironia no livro em relação ao progresso e à condução da História pelos homens. A Colômbia o serve a esse propósito mais do que outros lugares?
Cresci na Colômbia, onde vivi até os 23 anos. Lá era meu mundo mítico, que pensava não ter segredos. O choque ao me dar conta de que na realidade não conhecia meu país foi muito brutal. Quando você percebe que a História desse país que acredita entender está cheia de cantos escuros, isso se torna uma espécie de grande mistério, que enfrentei por meio dos romances. Isso não acontece com a Espanha, onde vivo há 12 anos, nem com a França, onde vivi três anos, porque nunca senti que entendia perfeitamente esses lugares.

Estar longe o ajuda a falar da Colômbia?
Sim, não só a distancia geográfica, mas também de tempo. Saí da Colômbia em 1996 e levei oito anos para publicar meu primeiro livro sobre a Colômbia, "Os informantes". Estou convencido de que se tivesse ficado no país não teria escrito esses romances tão obsessivamente colombianos. Houve uma mudança de olhar, a Colômbia tornou-se essa espécie de área de escuridão na qual tinha que me lançar com a lâmpada dos romances para tentar entendê-la.

Em algumas partes do livro, o realismo mágico é tratado com sarcasmo. Essa tradição literária o motivou a contar a história de seu país de forma totalmente distinta?
O realismo mágico nunca teve relação com minha visão de mundo, porque sempre esteve muito ligado às condições geográficas de Gabriel García Márquez. Ele diz que nunca inventou nada em "Cem anos de solidão", apenas se limitou a contar o que suas tias e avós contavam a ele. Os colombianos sabem que nesse mundo da costa do Caribe as linhas entre a realidade e a superstição se apagam muito, e aí nasce uma estética como essa. Mas o mundo de uma pessoa nascida na costa do Caribe nos anos 1920 é totalmente diferente do de alguém nascido em Bogotá nos anos 1970. Não poderíamos ser mais opostos. Este é o mal-entendido que sempre existiu, de que os escritores de Bogotá tiveram que se livrar à força desse grande fantasma. Os romances maravilhosos de García Márquez nunca me fizeram sentir ameaçado ou preso a uma estética que não é a minha.

Mas há um sarcasmo quando o narrador "acalma" o leitor dizendo que "este não é um daqueles livros em que os mortos falam, ou as mulheres belas sobem aos céus, ou os padres se afastam do chão depois de tomar uma beberagem quente".
Sim, mas três páginas depois há um morto que fala (risos). Eu me dei conta de que o território do livro estaria mais ou menos relacionado ao de García Márquez, porque o romance é sobre o Caribe e o século XIX, e este é o momento em que começa "O amor nos tempos do cólera" e "Cem anos de solidão". Sabia não só que precisava buscar uma via de entrada totalmente distinta, mas também que pelo tom do narrador poderia me permitir certos sarcasmos mais abertos, certas brincadeiras privadas entre leitor e narrador.

Você sempre retorna à Colômbia?
Volto todos os anos. Tenho um coluna no jornal colombiano "El espectador", e meus temas continuam sendo colombianos. Me dei conta de que tenho uma relação de pesquisador com a Colômbia. Chego e quase imediatamente começo a fazer perguntas às pessoas que viveram coisas que não pude viver, para entender um pouco de onde viemos como país.

A pesquisa para "História secreta de Costaguana" foi apenas baseada em livros ou você conversou com muita gente?
Falei com amigos historiadores que conheciam detalhes que encantam os romancistas e que não têm importância numa história real. Por exemplo, um deles me contou que os cadáveres de trabalhadores chineses não podiam ser enterrados no Panamá porque o terreno era muito instável, então a solução foi vendê-los a universidades do mundo inteiro para que estudassem anatomia. Não encontrei isso em livro algum. Já "Os informantes" foi um romance totalmente construído com testemunhas. Ele nasceu graças a uma conversa de três dias com uma mulher que me contou toda a sua vida de imigrante alemã na Colômbia e que se tornou a personagem Sara Guterman no romance.

Você participará da Flip numa mesa com o espanhol Javier Cercas, com quem já esteve em outros festivais literários. Qual é a sua expectativa para esse encontro?
Javier é um dos autores que mais admiro e respeito na minha língua. Temos opiniões muito parecidas sobre História e ficção, então nesses debates o que acontece muitas vezes é que dizemos um ao outro: "Concordo com você" (risos).

Você já esteve no Brasil?
Estive, aos 15 anos, num campeonato de futebol de escolas latino-americanas. Zico me entregou uma medalha, tenho muito orgulho disso.

É verdade que você traduziu uma biografia de Pelé quando era criança?
Tinha 9 anos e meu pai me encarregou de fazer uma tradução do inglês. Foi inteligente da parte dele, porque eu só pensava em futebol. Mas acho que ele nunca me pagou (risos).


Jornal O Globo - entrevista publicada em 18 de junho de 2012 

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