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02/12/2010

Entrevista com repórter que, disfarçado de desabrigado, morou vinte dias na favela

Por Paula Taitelbaum

Em 1990, três repórteres do Jornal do Brasil subiram três morros do Rio de Janeiro com um objetivo: morar cerca de um mês na favela. Tinham como pauta mostrar a vida dos moradores comuns das chamadas “comunidades”. O resultado foi, além da reportagem para o JB, um livro publicado pela L&PM com o título de “A violência que oculta a favela”. Em 2002, a obra foi reeditada para o Ministério da Educação e, a partir de então, vem sendo usada pelo programa EJA (Educação de Jovens e Adultos). Entre os autores da aventura de duas décadas atrás, estava o jornalista Sérgio Pugliese que, aos 26 anos, virou morador da favela Pára Pedro. Na entrevista exclusiva abaixo, Sérgio conta que a milícia sempre esteve em cima do morro e que a morte de Tim Lopes foi um divisor de águas na relação entre os traficantes e os jornalistas. E conta mais do que isso. Vale a pena ler.

L&PM: Quantos anos você tinha quando viveu essa experiência de morar numa favela?

Sérgio: Tinha 26 anos de idade e era repórter de Cidade, do Jornal do Brasil.

 

L&PM: De quem foi a ideia da pauta?

Sérgio: Foi do editor Rosenthal Calmon Alves. Ele perguntou para todos os repórteres da editoria quem gostaria de morar numa favela para retratar como as pessoas viviam. Cada um podia optar a forma de agir. Eu preferi ocultar que era jornalista e disse que era um desalojado das chuvas, de Espírito Santo. Os outros dois, Francisco Luiz Noel e Luarlindo Ernesto, preferiram se identificar.

 

L&PM: A reportagem mostra a vida das pessoas simples e trabalhadoras da favela, o mundo ocultado por trás da violência. Na época, essas pessoas viviam com medo?

Sérgio: Igualzinho a hoje. E a favela que fiquei era dominada por uma milícia. Só não tinha esse nome. Acho engraçado ler as matérias falando de milícia como se fosse a maior novidade do mundo.

 

L&PM: Como era o barraco em que você morou?

Sérgio: Morei numa casa de alvenaria. Era uma Associação de Moradores desativada. Não tinha água, não tinha nada. Levei um colchonete e me virava.

 

L&PM: O livro reportagem foi escrito em 1990 e reeditado para o Ministério da Educação em 2002. Esse interesse do governo significa o quê, na sua opinião?

Sérgio: Vários governos foram omissos nessa questão. Talvez no de Leonel Brizola tenha ocorrido o boom dessas expansões. As favelas quadruplicaram sem saneamento, saúde e educação. Os discursos de melhoria se repetem de governo a governo e talvez por isso a reedição do livro. As ONGS e instituições ocuparam o espaço do governo. Só de alguns anos para cá perceberam que do jeito que está não dá mais.  

 

L&PM: Você acha que a realidade dos moradores da favela foi mudando ao longo desses vinte anos?

Sérgio: As pessoas continuaram tendo filhos, nenhum controle de natalidade. Os traficantes continuam em suas portas e as balas perdidas continuam matando. O governo tenta alterar essa paisagem pintando as casas. Por dentro, continuam iguais. Nesse período só vi as favelas crescerem e o tráfico ampliar seus domínios.  

 

L&PM: Você continuou em contato com alguém da favela?

Sérgio: Todos que me ajudaram na matéria morreram meses depois numa invasão da quadrilha de Cy de Acari. Todos eram bandidos, ex-policiais expulsos de suas corporações. Mas ficaram meus amigos. Tentei entender como entraram naquele mundo. Nada disso saiu na matéria porque a intenção não era essa. A ideia era mostrar o dia a dia dos moradores e seus personagens, a parteira, a rezadeira, os mutirões.

 

L&PM: Subiu novamente uma favela depois disso? Quantas vezes?

Sérgio: Não sei precisar. Eu vivo em favelas. Faço trabalhos para diversas instituições, como Nós do Morro, no Vidigal; Solar Meninos de Luz, no Pavãozinho; e AfroReggae que mediou a guerra no Complexo do Alemão. Pelo menos duas vezes por semana estou numa favela. Também produzo documentários jornalísticos e acompanho as filmagens em todas essas comunidades. O Tim Lopes foi meu grande amigo e tomamos muita cerveja no Buraco Quente, na Mangueira.

 

L&PM: Sentiu-se uma pessoa diferente depois de morar lá em cima?

Sérgio: Nasci em Santa Teresa e jogava bola no time do Morro dos Prazeres. Passei um Réveillon com meus amigos de lá. Acompanhei um foguetório na virada do ano saboreando um churrasquinho com eles. Estudei em escola pública e a maioria dos meus amigos morava em favela. Por isso, não senti qualquer medo quando me ofereci para fazer a matéria.  

 

L&PM: Tentou se sentir um favelado?

Sérgio: Entrei no Pára Pedro como costumava andar em Santa Teresa. Bermuda, camiseta e boné. Todos somos iguais. A diferença é o medo de um traficante confundir você com um informante da polícia. Passado isso é tudo igual. Jogava bola, sinuca, comia na pensão, ajudava nos mutirões. Um dia, descobriram que eu era jornalista e foi estressante. Pensei que fosse morrer, mas acreditaram na minha história. Dois moradores foram ao lançamento do livro.

 

L&PM: Teve medo lá em cima naquela época?

Sérgio: Quando descobriram que era jornalista (fui reconhecido por um homem que havia entrevistado meses antes numa chacina em Vila Cruzeiro) me acordaram de madrugada e me levaram para um campo de futebol. Lá me esperava o Menininho, dono do morro. Conversei com ele algumas horas e o convenci. Ali, achei que fosse morrer. Caramba, foi muitos anos antes da morte do Tim Lopes. Só Jorge Antonio Barros havia morado numa favela (Rocinha) antes de mim. Ele quase foi morto. Cheguei a olhar para os lados pensando para onde poderia correr, mas tudo deu certo.

 

L&PM: Sabemos que as favelas se armaram com força e potência nos últimos anos. Teria medo de morar lá em cima hoje?

Sérgio: Hoje, mudou muito. Antes os traficantes respeitavam os jornalistas. A morte do Tim Lopes foi um divisor de águas. Outro dia acompanhava uma filmagem no Alemão e pelo rádio os bandidos gritavam “olha os repórteres lá embaixo. Bala, neles!”. Isso não existia. Nunca usei colete à prova de balas, nem carro blindado. Hoje, quase todos usam. Mas digo sem qualquer dúvida, moraria, sim.

 

L&PM: O Rio de Janeiro está mesmo otimista com a tomada do Complexo do Alemão. Você também está?

Sérgio: Está otimista, sim. O governador Sergio Cabral virou um superstar. Ele ficou contra a parede e tomou a iniciativa certa. Ninguém suportava mais. O desafio agora é manter o otimismo do carioca em dia, partir para outras favelas armadas. Vai demorar, mas é preciso manter uma regularidade nessas ações. Estou otimista, sim.

 

L&PM: Os traficantes de vinte anos atrás pareciam ter mais glamour do que os de hoje. Eram os “donos” da favela, mas pareciam ser menos cruéis e mais paternalistas em relação à sua comunidade.

Sérgio: Isso é lenda. Os bandidos sempre foram cruéis. Sempre mataram inocentes para conquistar territórios e amedrontar os inimigos. Até hoje algumas facções usam a tática de serem paternalistas. Para mim a única coisa que mudou foi a relação jornalista/traficante.

 

L&PM: Você acha que a influência do “morro” nas eleições, como mostra o filme Tropa de Elite 2, sempre esteve presente?

Sérgio: Sem a menor dúvida. No Rio, dois milicianos foram mortos no último ano, um vereador e um deputado. Eles ganharam espaço. A população tem parcela de culpa nisso por não acreditar nos políticos. Eles se organizaram e cada vez ganham mais cadeiras. Precisamos eleger pessoas de bem, precisamos investir em novos nomes e só isso irá tirar o espaço deles.

 

L&PM: O que você acha do “turismo” da favela?

Sérgio: Abominável. Cada vez que vejo passar um Jeep Tour sinto vontade de vomitar. Mas acho bom destacar que acho ruim o turismo para ver a pobreza. Quando começarem a investir no lugar, aí sim é importante construir pousadas e restaurantes para todos frequentarem os morros do Rio, inclusive os turistas.

 

A foto inicial mostra Sérgio Pugliese no Complexo do Alemão, ao lado de José Júnior, líder do AfroReggae, em foto batida no dia 02 de dezembro de 2010.

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