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09/01/2009

Entrevista com Annie Cohen-Solal, autora de Sartre – uma biografia

Por L&PM Editores

Annie Cohen-Solal, autora de Sartre – uma biografia, concedeu entrevista à L&PM Editores na qual fala sobre o processo de criação da obra e sua repercussão na França e no resto do mundo. Annie é doutora em Letras e professora de Estudos Americanos na Universidade de Caen e na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais de Paris. Considerada a principal biógrafa do filósofo, já publicou outros livros sobre Sartre, entre eles Sartre, um pensador para o século XXI e Sartre (L&PM Pocket, 2005). 

L&PM – Como foi a repercussão do lançamento de Sartre – uma biografia em 1985, cinco anos após sua morte?

Annie – Na França, onde nenhum editor estava interessado em se juntar à editora americana que encomendou o livro, em 1980 (imediatamente após a morte de Sartre), o lançamento foi inacreditavelmente positivo e abrangente. Todos os jornais, periódicos semanais e mensais publicaram uma edição especial sobre o livro. A editora Gallimard produziu um cartaz com a silhueta de Sartre em tamanho natural e o distribuiu em todas as livrarias. Pessoas chegaram a oferecer cinco mil dólares (na época) por esse cartaz. Acredito que o livro contribuiu para introduzir Sartre outra vez nos circuitos de debate, de uma maneira mais tranqüila, depois de tantos anos de silêncio, de estranheza e de críticas sem fundamento.

L&PM – No prefácio original de seu livro, você comenta que os anos imediatamente subseqüentes à morte de um escritor são muito incertos, e o biógrafo que inicia a pesquisa neste momento se expõe a todos os tipos de oposição. Como foi, então, a construção dessa biografia?

Annie – Como socióloga, eu estava apta a interpretar as atitudes que a maioria dos intelectuais franceses exibiu logo após a morte de Sartre. Primeiro, o silêncio: "nós não podemos falar sobre ele, não há nada para falar sobre ele". Depois, críticas: "ele foi responsável por todos os erros da esquerda" e alguns jornais publicaram a lista com os dez maiores erros de Sartre. Por fim, houve a procura por um sucessor – como se um intelectual pudesse ser substituído como um objeto, uma escova de dente ou um lápis. Eu decididamente recusei ter um papel nessa patética paródia e fui recolher dados para entender como foi possível a ascensão de Sartre na função de bússola ética global.

L&PM – Quais as fontes que você utilizou para compor a biografia? Você obteve ajuda de Simone de Beauvoir? 

Annie – Como acadêmica que trabalha com história oral e como jornalista, entrevistei a maioria das pessoas que conheceram Sartre, como seus amigos de infância, escola e universidade; seus alunos; suas namoradas; sua família; seus parceiros intelectuais, na França e em outros países; seus editores; políticos que se relacionaram com ele; membros da revista Les Temps Modernes e, claro, Simone de Beauvoir. Mas entre todas essas pessoas, eu gostaria de destacar duas: Dolores Vanetti, seu grande amor, que ele conheceu em 1945, e que faleceu há pouco, aos 96 anos de idade. E Gilberto Gil, a quem vi em fotos lendo livros de Sartre no palco e que, com seu brilhante depoimento (eu o conheci em 2005), realizou o mais vibrante tributo ao filósofo.

L&PM – Na segunda edição do livro, você analisa a lacuna existente entre a avaliação da obra de Sartre dentro da França (onde é muito criticada) e no estrangeiro (onde permanece vibrante e viva), durante a celebração do centenário de nascimento do escritor. Qual o impacto da obra do filósofo nos chamados “países em desenvolvimento”, como o Brasil?

Annie – Os franceses têm dificuldades em lidar com o próprio passado. É um país com tradição católica, que realmente não gosta de lidar com as feridas do passado, especialmente traumas de memória coletiva. Sartre, de maneira única, teve o papel de denunciar a colaboração (dos franceses) com os nazistas na França ocupada, os danos da colonização francesa na Argélia, os crimes dos Estados Unidos no Vietnã... Você acredita que entre todas as universidades da França, devem existir apenas duas com ph.D. em Sartre? Na verdade, Sartre foi banido de várias universidades, porque nunca jogou o jogo institucional. Quando um estudante francês quer fazer um ph.D. sobre Sartre, ele vai para a Inglaterra, Bélgica, Suíça ou Estados Unidos, onde encontra pessoas adequadas para trabalhar! Na ocasião do centenário de seu nascimento, em 2005, o semanário de esquerda Le Novel Observateur publicou na capa a seguinte manchete: “Devemos queimar Sartre?”, o qual sequer estava tentando ser irônico, mas apenas fazendo críticas maldosas e sem fundamento sobre ele. Por outro lado, dois anos atrás me foi oferecida a cátedra “Sartre” por parte do reitor da Universidade de Brasília, que entendeu o imenso potencial e a atualidade de seus escritos. Penso que Sartre antecipou todas as preocupações globais que são reveladoras nos dias de hoje, e seus textos ainda nos iluminam e esclarecem.

Annie Cohen-Solal, autora de Sartre – uma biografia, concedeu entrevista à L&PM Editores na qual fala sobre o processo de criação da obra e sua repercussão na França e no resto do mundo. Annie é doutora em Letras e professora de Estudos Americanos na Universidade de Caen e na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais de Paris. Considerada a principal biógrafa do filósofo, já publicou outros livros sobre Sartre, entre eles Sartre, um pensador para o século XXI e Sartre (L&PM Pocket, 2005). 

L&PM – Como foi a repercussão do lançamento de Sartre – uma biografia em 1985, cinco anos após sua morte?

Annie – Na França, onde nenhum editor estava interessado em se juntar à editora americana que encomendou o livro, em 1980 (imediatamente após a morte de Sartre), o lançamento foi inacreditavelmente positivo e abrangente. Todos os jornais, periódicos semanais e mensais publicaram uma edição especial sobre o livro. A editora Gallimard produziu um cartaz com a silhueta de Sartre em tamanho natural e o distribuiu em todas as livrarias. Pessoas chegaram a oferecer cinco mil dólares (na época) por esse cartaz. Acredito que o livro contribuiu para introduzir Sartre outra vez nos circuitos de debate, de uma maneira mais tranqüila, depois de tantos anos de silêncio, de estranheza e de críticas sem fundamentos.

L&PM – No prefácio original de seu livro, você comenta que os anos imediatamente subseqüentes à morte de um escritor são muito incertos, e o biógrafo que inicia a pesquisa neste momento se expõe a todos os tipos de oposição. Como foi, então, a construção dessa biografia?

Annie – Como socióloga, eu estava apta a interpretar as atitudes que a maioria dos intelectuais franceses exibiu logo após a morte de Sartre. Primeiro, o silêncio: "nós não podemos falar sobre ele, não há nada para falar sobre ele". Depois, críticas: "ele foi responsável por todos os erros da esquerda" e alguns jornais publicaram a lista com os dez maiores erros de Sartre. Por fim, houve a procura por um sucessor – como se um intelectual pudesse ser substituído como um objeto, uma escova de dente ou um lápis. Eu decididamente recusei ter um papel nessa patética paródia e fui recolher dados para entender como foi possível a ascensão de Sartre na função de bússola ética global.

L&PM – Quais as fontes que você utilizou para compor a biografia? Você obteve ajuda de Simone de Beauvoir? 

Annie – Como acadêmica que trabalha com história oral e como jornalista, entrevistei a maioria das pessoas que conheceram Sartre, como seus amigos de infância, escola e universidade; seus alunos; suas namoradas; sua família; seus parceiros intelectuais, na França e em outros países; seus editores; políticos que se relacionaram com ele; membros da revista Les Temps Modernes e, claro, Simone de Beauvoir. Mas entre todas essas pessoas, eu gostaria de destacar duas: Dolores Vanetti, seu grande amor, que ele conheceu em 1945, e que faleceu há pouco, aos 96 anos de idade. E Gilberto Gil, a quem vi em fotos lendo livros de Sartre no palco e que, com seu brilhante depoimento (eu o conheci em 2005), realizou o mais vibrante tributo ao filósofo.

L&PM – Na segunda edição do livro, você analisa a lacuna existente entre a avaliação da obra de Sartre dentro da França (onde é muito criticada) e no estrangeiro (onde permanece vibrante e viva), durante a celebração do centenário de nascimento do escritor. Qual o impacto da obra do filósofo nos chamados “países em desenvolvimento”, como o Brasil?

Annie – Os franceses têm dificuldades em lidar com o próprio passado. É um país com tradição católica, que realmente não gosta de lidar com as feridas do passado, especialmente traumas de memória coletiva. Sartre, de maneira única, teve o papel de denunciar a colaboração (dos franceses) com os nazistas na França ocupada, os danos da colonização francesa na Argélia, os crimes dos Estados Unidos no Vietnã... Você acredita que entre todas as universidades da França, devem existir apenas duas com ph.D. em Sartre? Na verdade, Sartre foi banido de várias universidades, porque nunca jogou o jogo institucional. Quando um estudante francês quer fazer um ph.D. sobre Sartre, ele vai para a Inglaterra, Bélgica, Suíça ou Estados Unidos, onde encontra pessoas adequadas para trabalhar! Na ocasião do centenário de seu nascimento, em 2005, o semanário de esquerda Le Novel Observateur publicou na capa a seguinte manchete: “Devemos queimar Sartre?”, o qual sequer estava tentando ser irônico, mas apenas fazendo críticas maldosas e sem fundamento sobre ele. Por outro lado, dois anos atrás me foi oferecida a cátedra “Sartre” por parte do reitor da Universidade de Brasília, que entendeu o imenso potencial e a atualidade de seus escritos. Penso que Sartre antecipou todas as preocupações globais que são reveladoras nos dias de hoje, e seus textos ainda nos iluminam e esclarecem.

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