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40 anos sem Josué Guimarães: relembre a obra de um dos maiores romancistas do século XX

20/03/2026

- Por Eduarda Stefenon

Em 23 de março de 2026, completam-se 40 anos da morte de Josué Guimarães, um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX e um dos nomes fundamentais da literatura do Rio Grande do Sul. Autor de romances marcantes, jornalista combativo e intelectual profundamente comprometido com a democracia, Guimarães deixou uma obra que permanece atual e que continua a conquistar novas gerações de leitores.

Com uma carreira literária relativamente breve, menos de vinte anos, Josué construiu um conjunto de livros que hoje são considerados clássicos da literatura brasileira, entre eles A Ferro e Fogo (1972), Depois do Último Trem (1973), É Tarde para Saber (1977), Os Tambores Silenciosos (1977), Dona Anja (1978) e Camilo Mortágua (1980). Sua obra aborda temas como memória histórica, injustiça social, autoritarismo e a formação cultural do Brasil.

Quatro décadas após sua morte, o escritor segue sendo uma referência literária, especialmente em tempos em que a reflexão sobre democracia, liberdade e memória histórica volta a ocupar o centro do debate público.

 

 

Um escritor forjado no jornalismo e na política

 

Nascido em 7 de janeiro de 1921, em São Jerônimo (RS), Josué Marques Guimarães iniciou sua carreira como jornalista ainda jovem, trabalhando em diversos veículos importantes do país. Passou por redações como Correio da Manhã, Diário de Notícias e pela revista O Cruzeiro, exercendo praticamente todas as funções possíveis dentro de um jornal, de repórter a diretor.

Também atuou na vida pública: foi vereador em Porto Alegre pelo PTB, vice-presidente da Câmara Municipal e diretor da Agência Nacional durante o governo de João Goulart.

Com o golpe militar de 1964, tornou-se alvo de perseguição política. Foi investigado pelos órgãos de segurança e precisou trabalhar sob pseudônimos durante anos. Mais tarde, passou um período em exílio em Portugal, entre 1974 e 1976, atuando como correspondente internacional. Essa experiência direta com a política e com os bastidores do poder marcou profundamente sua obra literária.

 

O escritor que começou tarde

 

Curiosamente, Josué Guimarães iniciou sua carreira como escritor de ficção relativamente tarde. Seu primeiro livro, Os Ladrões, foi publicado em 1970, quando ele tinha 49 anos. A partir daí, produziu uma sequência impressionante de romances, novelas e contos que rapidamente o consolidaram como um dos grandes narradores brasileiros.

Entre seus livros mais conhecidos está a saga A Ferro e Fogo, composta pelos romances Tempo de Solidão (1972) e Tempo de Guerra (1973). A obra retrata a colonização alemã no sul do Brasil com um realismo histórico poderoso e personagens complexos. Um terceiro volume, Tempo de Angústia, chegou a ser planejado, mas nunca foi concluído devido à morte do autor, em 1986. Outro destaque é Tambores Silenciosos, romance premiado que apresenta uma crítica contundente aos regimes autoritários por meio de uma narrativa alegórica ambientada em uma pequena cidade. 

 

Literatura e resistência à ditadura

 

A experiência da repressão política durante a ditadura militar marcou profundamente o trabalho de Josué Guimarães. Seu romance É tarde para saber (1977) aborda de forma sensível o contexto da repressão e das lutas políticas da juventude brasileira durante o regime militar. Em vez de um discurso ideológico direto, o autor constrói um romance em que a dimensão política surge por meio das relações humanas e do impacto da violência do Estado na vida cotidiana.

O escritor e professor Sergius Gonzaga observa que o livro é uma obra que “mostra e desmascara o seu tempo histórico”, ao retratar tanto o engajamento quanto a alienação da juventude brasileira diante da repressão. Essa abordagem tornou Josué um autor singular: um romancista profundamente político, mas sem abrir mão da dimensão humana de seus personagens.

 

A relação histórica com a L&PM Editores

A trajetória de Josué Guimarães também está profundamente ligada à L&PM Editores. Nos anos 1970, quando a editora ainda estava começando, Josué foi um dos primeiros grandes autores brasileiros a aderir ao projeto editorial da casa. Ao longo das décadas, a editora manteve sua obra viva, com sucessivas reedições,  especialmente na coleção L&PM Pocket, responsável por levar seus livros a novos leitores.

Segundo o editor Ivan Pinheiro Machado, Josué era não apenas um grande escritor, mas também uma referência moral:

“Para todos nós, Josué era um exemplo de coerência e postura moral. Um humanista ferrenho, incapaz – mesmo diante das grandes dificuldades materiais que viveu – de capitular com a ditadura que vigorava da época. Josué era perseguido pela polícia política e, por consequência, ignorado pela elite cultural que dava as cartas na época.”

Ivan Pinheiro Machado, editor

 

Uma obra que atravessa gerações

Josué Guimarães morreu em 23 de março de 1986, aos 65 anos, quando ainda tinha diversos projetos literários em andamento. Entre os romances planejados estavam:

  • A morte da primeira dama
  • Uma fresta na janela
  • O terceiro volume da saga A Ferro e Fogo
  • Brava Gente, um ambicioso romance que percorreria toda a história do Brasil.

Além dos romances, Josué também escreveu contos, peças de teatro, crônicas e livros infantis, mostrando uma impressionante versatilidade literária.

Obras publicadas:

Os Ladrões – contos (Ed. Forum), 1970

A Ferro e Fogo I (Tempo de Solidão) – romance (L&PM), 1972

A Ferro e Fogo II (Tempo de Guerra) – romance (L&PM), 1973

Depois do Último Trem – novela (L&PM), 1973

Lisboa Urgente – crônicas (Civilização Brasileira), 1975

Tambores Silenciosos – romance (Ed. Globo – Prêmio Erico Verissimo de romance), 1976 – (L&PM), 1991

É Tarde Para Saber – romance (L&PM), 1977

Os Tambores Silenciosos (L&PM), 1977

Dona Anja – romance (L&PM), 1978

Enquanto a Noite Não Chega – romance (L&PM), 1978

O Cavalo Cego – contos (Ed. Globo), 1979, (L&PM), 1995

O Gato no Escuro – contos (L&PM), 1982

Camilo Mortágua – romance (L&PM), 1980

Um Corpo Estranho Entre Nós Dois – teatro (L&PM),1983

Amor de Perdição – romance (L&PM), 1986

As muralhas de jericó – memórias (L&PM), 2001

Garibaldi e Manoela: Uma História de Amor – romance (L&PM), 2010

Neoleitores: Garibaldi e Manoela: Uma História de Amor – romance (L&PM), 2010

 

Infantis (todos pela L&PM):

A Casa das Quatro Luas – 1979

Era uma Vez um Reino Encantado – 1980

Xerloque da Silva em “O Rapto da Dorotéia” – 1982

Xerloque da Silva em “Os Ladrões da Meia-Noite” – 1983

Meu Primeiro Dragão – 1983

A Última Bruxa – 1987