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​Quem foi João Cândido: entenda a história do "Almirante negro"

15/07/2026

- Por Eduarda Stefenon


Mais de um século após liderar a Revolta da Chibata, o marinheiro negro João Cândido Felisberto voltou ao debate público brasileiro. Em sentença proferida em junho, a Justiça Federal condenou a União por manifestações da Marinha consideradas ofensivas à memória do líder da revolta — episódio histórico que denunciou a permanência da violência escravista dentro da República brasileira.

A decisão reacendeu discussões sobre memória histórica, racismo institucional e a forma como o Estado brasileiro lida com personagens negros que desafiaram estruturas de poder. Também trouxe novamente à tona uma disputa antiga: a resistência de setores militares ao reconhecimento histórico de João Cândido como símbolo de luta por dignidade e cidadania.

Nesse contexto, chega às livrarias pela L&PM Editores um romance histórico de Alcy Cheuiche sobre João Cândido e a Revolta da Chibata. A obra ajuda a contextualizar o episódio histórico e retomar a valorização de um personagem cuja trajetória continua atravessando debates contemporâneos sobre racismo, violência de Estado e memória nacional.

QUEM FOI JOÃO CÂNDIDO?

João Cândido Felisberto nasceu em Encruzilhada do Sul, no Rio Grande do Sul, em 1880, filho de ex-escravizados. Ingressou ainda jovem na Marinha brasileira e passou mais de 15 anos na corporação. Tornou-se marinheiro experiente, instrutor de aprendizes e conheceu diferentes países em viagens internacionais da esquadra brasileira.

Foi justamente esse contato com marinhas estrangeiras que ampliou sua percepção sobre a brutalidade das punições ainda praticadas no Brasil. Enquanto diversos países já haviam abolido castigos físicos, marinheiros brasileiros, majoritariamente negros e pobres,  continuavam submetidos a humilhações públicas, trabalhos exaustivos e espancamentos com chibatas.

Conhecido posteriormente como “Almirante Negro”, João Cândido tornou-se símbolo da luta contra práticas herdadas diretamente da escravidão, abolida oficialmente apenas 22 anos antes da revolta. Na época, marinheiros podiam receber centenas de chibatadas por infrações disciplinares.

A rebelião explodiu após o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes receber cerca de 250 chibatadas diante da tripulação, punição que se tornou o estopim da revolta. O episódio expôs ao país a permanência de métodos disciplinares típicos do período escravista dentro das Forças Armadas republicanas.

O QUE FOI A REVOLTA DA CHIBATA?

A Revolta da Chibata ocorreu entre os dias 22 e 26 de novembro de 1910, no Rio de Janeiro, então capital federal. Durante quatro dias, cerca de 2.300 marinheiros assumiram o controle de alguns dos mais poderosos encouraçados da Marinha brasileira, incluindo os navios Minas Geraes e São Paulo. Os revoltosos apontaram os canhões para a cidade e enviaram mensagens exigindo o fim imediato dos castigos físicos, melhores condições de trabalho, alimentação digna, aumento salarial e anistia aos envolvidos.

A tensão gerou temor de bombardeio da capital federal e colocou o governo Hermes da Fonseca sob forte pressão política. Diante da ameaça militar e da repercussão pública, o governo aceitou negociar e prometeu abolir oficialmente as punições corporais na Marinha.

Entretanto, após o encerramento da revolta, o acordo foi descumprido. Muitos marinheiros foram perseguidos, expulsos, presos ou mortos.

João Cândido foi encarcerado na Ilha das Cobras. Em uma das celas, 16 marinheiros morreram asfixiados. Ele sobreviveu, mas posteriormente foi internado no Hospital Nacional dos Alienados sob alegação de insanidade mental, diagnóstico posteriormente descartado. Absolvido judicialmente em 1912, ainda assim acabou expulso da Marinha.

Nas décadas seguintes, viveu em condições precárias, trabalhando como peixeiro no Rio de Janeiro. Morreu em 1969 sem reconhecimento oficial do Estado brasileiro.

DA PERSEGUIÇÃO À REABILITAÇÃO HISTÓRICA

Durante grande parte do século XX, a memória de João Cândido foi silenciada ou tratada de forma marginal pelas instituições oficiais. Seu processo de reabilitação começou lentamente a partir da redemocratização do país e do fortalecimento dos movimentos negros e de pesquisadores dedicados à revisão crítica da história brasileira.

Em 2008, o Estado brasileiro sancionou a Lei nº 11.756, que concedeu anistia post mortem a João Cândido Felisberto e aos demais participantes da Revolta da Chibata. Nos anos seguintes, cresceram iniciativas para reconhecer João Cândido como personagem central da luta contra o racismo e a violência institucional.

Em 2021, o Senado aprovou projeto para inscrever seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, documento depositado no Panteão da Pátria, em Brasília, destinado a homenagear figuras consideradas fundamentais para a história nacional. A proposta, porém, enfrentou resistência da Marinha, que pediu adiamento da votação e enviou documentos contrários ao reconhecimento do marinheiro como herói nacional.

POR QUE O CASO VOLTOU ÀS NOTÍCIAS?

Em sentença proferida no dia 20 de junho de 2026, a Justiça Federal condenou a União ao pagamento de indenização por dano moral coletivo após manifestações institucionais da Marinha consideradas ofensivas à memória de João Cândido.

O processo teve origem em uma carta enviada em 2024 pelo comandante da Marinha, Almirante de Esquadra Marcos Sampaio Olsen, à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, em oposição ao projeto de lei que propunha a inscrição de João Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

No documento, a Revolta da Chibata foi chamada de “deplorável página da história nacional”, e os revoltosos foram classificados como “abjetos”. O comandante também afirmou que homenagear João Cândido equivaleria a legitimar o uso de armas militares para reivindicações de classe.

O Ministério Público Federal argumentou que as manifestações:

  • desrespeitam a memória de João Cândido;
  • afrontam tratados internacionais de direitos humanos;
  • ignoram a anistia concedida aos participantes da revolta;
  • e reproduzem práticas institucionais de racismo histórico.

Na decisão, a Justiça reconheceu que órgãos públicos têm direito à interpretação histórica, mas destacou que a liberdade de expressão não autoriza linguagem ofensiva, humilhante ou discriminatória contra grupos historicamente perseguidos. O juiz também ressaltou que a Revolta da Chibata foi protagonizada majoritariamente por marinheiros negros submetidos a práticas herdadas da lógica escravista.

RACISMO E MEMÓRIA

Historiadores apontam que a Revolta da Chibata expôs uma contradição central do Brasil pós-abolição: embora a escravidão tivesse sido oficialmente encerrada em 1888, práticas violentas e estruturas racistas permaneceram intactas dentro das instituições republicanas.

A Marinha brasileira era uma das instituições em que essa herança se mostrava mais explícita. Muitos marinheiros negros eram recrutados em condições precárias e submetidos a punições corporais que reproduziam mecanismos de controle do período escravista.

A revolta liderada por João Cândido tornou-se, assim, um marco da resistência negra no início do século XX.

Mais de cem anos depois, a disputa em torno de sua memória mostra como temas como racismo estrutural, reparação histórica, violência institucional e direito à memória seguem atuais no país. A própria reação institucional da Marinha ao reconhecimento de João Cândido demonstra como ainda existe disputa sobre quais personagens devem ocupar o espaço simbólico da história oficial brasileira.

JOÃO CÂNDIDO NA CULTURA BRASILEIRA

Apesar do apagamento institucional, João Cândido permaneceu vivo na cultura popular brasileira.

Sua trajetória foi eternizada na canção O Mestre-Sala dos Mares, composta por João Bosco e Aldir Blanc durante a ditadura militar.

A música originalmente utilizava a expressão “Almirante Negro”, censurada pelo regime militar, tornando-se um dos mais emblemáticos retratos artísticos da resistência negra e da luta contra o autoritarismo no Brasil.

NOVO ROMANCE AJUDA A ENTENDER A HISTÓRIA DA REVOLTA DA CHIBATA

No lançamento da L&PM Editores, Alcy Cheuiche, professor e escritor, resgata, de forma romanceada e acessível, a trajetória de João Cândido e os bastidores da Revolta da Chibata. A obra contextualiza o período da República Velha e transforma um dos episódios mais emblemáticos do racismo estrutural brasileiro em narrativa literária de forte potencial educativo e cultural.

A obra possui ilustrações de Gilmar Fraga que recriam os navios e os confrontos na Baía da Guanabara. Também dialoga diretamente com a aplicação da Lei 10.639, que estabelece o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas brasileiras.

O autor, Alcy Cheuiche, é conhecido por romances históricos voltados a episódios marcantes do passado brasileiro, como Nos céus de Paris: O romance da vida de Santos Dumont.
 

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